Archive for setembro, 2011

Cadernos

29/09/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Entrei há alguns dias em uma papelaria, fui direto para a sessão de cadernos e encontrei alguns com capa de couro, tira para amarrar, folhas lisas, sem pauta. Bem do meu gosto, é o tipo de caderno que atiça a inspiração. Como os Moleskine que tanta gente gosta, e eu também, esses cadernos têm uma coisa muito particular deles que faz a gente querer sentar com uma xícara de café do lado e começar a rabiscar até sair algo. Eles são como o chapéu de inventar do Professor Pardal. E quem tem coleção dos Escoteiros Mirins sabe que eu tô entregando minha idade em grande estilo com essa última comparação.

Mas, recentemente, manusear esses objetos me traz uma pequena tristeza. Há cerca de um ano, convivo diariamente com uma dor que varia de intensidade mas que raramente me deixa em paz, fruto de uma inflamação no punho que não é tendinite, síndrome do túnel do carpo ou qualquer outra coisa que eu já tenha ouvido falar. É um cisto lazarento que inflama e pressiona um nervo, pelo que entendi da consulta com o ortopedista. Tem dia que eu simplesmente tento esquecer que existe mão direita e faço tudo com o braço esquerdo, para aliviar a dor, que não cede facilmente. Aí, ver esses cadernos dos quais gosto tanto me deixa um pouco murcho, porque sei que não posso mais fazer um texto inteiro nele sem passar uns dias sofrendo com a dor.

Nem tudo é ruim. A gente não chegou até aqui sem reinventar o modo de viver e fazer as coisas periodicamente, e não pode ser diferente com as coisas mais triviais. Não posso escrever um texto inteiro, mas posso criar uma linguagem de expressões curtas para anotar as ideias, os conceitos, para produzir mais tarde o texto inteiro. Talvez usar uma cifra, como alguns jornalistas fazem. O importante é adaptar-se à sua nova realidade, porque esse papo de parar o mundo pra descer é, com o perdão da franqueza, frescura.

O médico quer que eu faça uma cirurgia. Segundo ele, não vai impedir o uso do punho por mais que uns dias, mas limitar durante várias semanas, dependendo do progresso da fisioterapia no pós-operatório. Se eu contar que tem pelo menos três meses que estou sabendo disso e não operei ainda, já dá pra saber que não gosto da ideia de alguém colocando instrumentos cirúrgicos no meu instrumento de trabalho para raspar o maldito cisto. Mas, mesmo esse carocinho que incha igual um baiacu e incomoda tanto, mesmo ele tem o seu lado bom. Porque são essas coisas que surgem como a pedra do Drummond e lhe tiram da zona de conforto. Por causa desse problema é que eu venho estudando maneiras de tornar meu trabalho mais eficiente, adaptar técnicas de organização à maneira como minha cabeça enxerga as coisas, e tentando me tornar um profissional melhor.

É claro que você sempre podia ter aprendido tudo isso sem a sensação de um bebê alien querendo pular fora do seu pulso, mas aí eu lembro de um caso de que tive notícia em 2001, quando um rapaz sofreu um acidente e perdeu o braço hábil. Quando a família o encontrou, porque o incidente deu-se na estrada e ele foi parar na emergência de um hospital público, sem identificação, ele já tinha sido operado e estava na maca, com uma mesinha, treinando a caligrafia com a mão que ficou.  Depois dessa, por mais que a dor  incomode, não tenho o direito de deixar isso atrapalhar minha rotina. Eu pego os cadernos na estante da livraria, folheio, cheiro a capa, sorrio e ponho-os no lugar.

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O remédio

22/09/2011    Postado em Contos, Textos
 

O barulho da tranca se abrindo mal é notado, diante da novidade de um médico ir pessoalmente à carceragem. Normalmente, apenas familiares e advogados, mas naquele dia chegou um médico, com a maletinha de couro preto e tudo. Jaleco branco não, ele explicou que não é correto andar por aí vestindo aquilo porque ele termina servindo para carregar doenças e outras imundícies de cá para lá.

Veio ver um paciente que atende há alguns anos. Não é grave, mas, se não tomar os remédios em dia, pode ficar. Epilepsia, talvez, os presos especulavam o que poderia ser, mas ele não diz, sigilo profissional. Só respondeu que não, o homem não estava maluco, ou não estaria nem ali na carceragem. Aguardou uns vinte minutos até liberarem uma sala do ambulatório, a única com mesa, e trazerem seu paciente. Abria a pequena maleta para apanhar o estetoscópio e o receituário. Ele não pretendia usar o estetoscópio no paciente, mas tirou-o da valise assim mesmo. Curiosamente, o remédio que se podia ver quando a tampa foi aberta ficou lá dentro, guardado.

O paciente não é jovem nem velho, alto ou baixo, nada disso. É daqueles que coloca retratista da polícia maluco com sua descrição, por ser um tipo absolutamente comum. Seria um erro tentar montar uma imagem dele em palavras. A única coisa que, essa sim, serve para identifica-lo, é o fato de ele ser portador de algo chamado heterocromia. Tem um olho azul e outro verde. Mas é só. Cumprimentou o médico com um aperto de mão e um olhar completamente distante, mas que, visto atentamente, denunciaria uma atenção incomum no estetoscópio sobre a mesa. Sentou-se.

O médico iniciou uma série de perguntas sobre seu estado de espírito, como e se estava se alimentando ali na carceragem, como estava dormindo e de que jeito, e ele foi respondendo da forma mais direta que podia. Essa cena, quase como uma entrevista médica do exército, de tão seca e distante, era muito estranha se considerarmos que os dois se conhecem há mais de quinze anos. Mas ninguém ali sabia disso e, portanto, nenhuma suspeita nasceu. Mas eles sabiam que estavam sendo vigiados. A maleta obstruía a visão da câmera e impedia que o bloco de receituários fosse visto. Mais tarde, essa obstrução levou à revista do preso, para conferir o que estava escrito na receita que levou junto com a caixa do remédio que recebeu. Mas era só a orientação de uso e nada mais.

O paciente voltou à cela com uma expressão de que obviamente esperava algo, mas percebeu que o médico jamais poderia lhe dizer o que quis ouvir sob a pesada vigilância a que ambos estavam submetidos. E achou que, ao dizer que voltaria em um mês, o médico lhe sinalizava a oportunidade de transmitir alguma mensagem. A existência de uma era o que significava o estetoscópio sobre a mesa. Já na hora de dormir, com a luz da lua entrando pela minúscula janela da cela e todos os presos acomodados como podiam, ele teve vontade de ler a receita que veio junto com a caixa. A princípio, não viu nada demais. Leu de novo, e de novo, até que notou que o nome do remédio na caixa não batia com o que estava escrito no papel. Havia algo a mais no final, um 3 e um D. Tirou a cartela da caixa quase fazendo barulho, porque achou que a mensagem pudesse estar ali dentro, mas na caixa nada havia. Então, quase desistindo, viu o celofane rompido em uma das cápsulas. Terceira à direita. Passava um guarda quando ele tirava a cápsula, mas ele não foi objeto de sua atenção, já tinha sido visto com os remédios antes e ninguém queria que ele tivesse uma crise do que quer que fosse, muito menos que isso gerasse problemas para alguém ali dentro.

Abriu a cápsula. Um pedaço de papel de arroz, desses de decorar bolo, trazia um recado impresso com letra miúda, para aproveitar o espaço. Forçou o rosto para não sorrir. Enrolou o papel de volta para a cápsula e a engoliu. Sentou-se num canto, recostou a cabeça e dormiu a primeira noite inteira em dois meses.

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