O anfitrião

11/08/2011 Postado em Contos, Textos

As flores que compõem as coroas parecem já meio mortas, como se o tom vivo, em suas pétalas, ameaçasse ofender a ocasião. Não é uma capela grande, de modo que duas delas, dos familiares, adornavam o caixão e as outras, por falta de opção e, principalmente, de espaço, foram displicentemente acomodadas num canto. A relevância dessa informação é tal que não saberia dizer qual canto. As pessoas que chegam cumprimentam o primeiro que veem pela frente, oferecendo seus sentimentos como quem oferece balas tiradas num punhado cheio de dentro do bolso. Se as pessoas tivesse um mínimo de noção de estatística, saberiam que tamanha displicência, inevitavelmente, causaria algum embaraço. Alguém cumprimentou a viúva do defunto errado. Custou muito deixa-disso, conversa e Lexotan para acalmar a viúva do outro defunto, porque a autora da gafe não sabia que seu antigo namorado tinha morrido, nem muito menos que tinha acabado expressar suas condolências àquela a quem o ajudou a trair meses a fio. “De outra feita, leia a droga da placa, menina”, disse uma velhinha com todo o jeito de quem frequentava o lugar.

O clima da cidade amanheceu bipolar e alterna um mormaço que cozinharia uma couve-flor deixada ao ar livre com uma chuva quase profana, tal era o cheiro que levantava da terra molhada junto às sepulturas novas. As capelas, pequenas e sem toldo nos nada maiores jardins às suas entradas, ficavam com o chão sujo, levemente escorregadio, e tão cheias que só os muito idosos se atreviam a sentar. Sentar ocupava um espaço precioso ali. O ar pesado, o desfile de óculos escuros, as roupas pretas, algumas senhoras de terço nas mãos, todo um roteiro se fazia cumprir. E o próximo passo começaria em instantes.

Claro… se o anfitrião não fala, alguém tem de animar a festa. E é assim que uma prima fica sabendo pela outra que uma terceira acaba de pedir a separação, mas apenas porque o marido era um cavalheiro e ia permitir que as pessoas achassem que ele era o culpado, mas, na verdade, era ela quem estava saindo com um colega de trabalho, mais novo que ela própria. Um escândalo! O homem tem sempre de ser mais velho, e ele é tão mais novo!

Uma tia, de mais idade, manda que calem a boca, que tenham respeito, não se admite assuntos mundanos num momento de contrição como este. Especialmente se isso impede que ela escute a outra tia narrar as agruras de sua vizinha, que nem é ligada à família, mas cuja filha está esperando um filho e não faz a mais vaga ideia de quem é o pai. Que tragédia, meu bom Deus, que tragédia. E que vergonha para a futura avó, encarar as amigas na igreja agora que a notícia veio a público.

E, se essas senhoras quase cochicham e ficam reunidas em pequenos grupos, garantindo a longevidade da rede de informação mais antiga do Universo – a fofoca -, há aqueles que ficam ao redor do caixão, ou no jardim, agora que a chuva estiou, contando casos e histórias do falecido. Nenhum defeito é trazido à tona, simplesmente porque não existem. Todo defeito do defunto evapora em seu último suspiro, e é assim com todo mundo. Se a pessoa foi boa, vira santa. Se for ruim, vira um boa-praça. Mas não há esse que seja maldito por aqueles que comparecem ao seu velório.

E há certa santidade, mesmo, no defunto. Ser um corpo inerte dentro de uma caixa de madeira e conseguir colocar no mesmo recinto parentes que se detestam e outros que não têm a menor afinidade entre si é o que se poderia chamar milagre. De resto, sua presença se presta a uma imensa combinação  de terapia de grupo, maledicência, saudosismo, mas, principalmente, muita fofoca e muita pitanga chorada.

Chega o sacerdote, abre sua maleta sobre a mesa e pega um papel com o nome do anfitrião e começa sua preleção. Com a indisfarçável impressão de quem faz o mesmo texto dúzias de vezes por dia, ele, decididamente, parece ser quem menos queria estar ali. Molha algumas lentes de óculos com seu aspersor de água benta, dá por encerrado o seu trabalho e entram os operários segundos depois de sua saída, como num teatro em perfeita sincronia. Caixão tampado e posto no carrinho que leva até o crematório (pulvus est et in pulverem reverteris), que vai seguido de toda aquela gente. Vendo de trás, o caixão não podia ser visto, só as flores ameaçando murchar com o próprio peso.

Depois da descida para o crematório, é como se um espinho fosse removido da unha de cada um daqueles todos. Os que não se falavam tornam a ignorar-se mutuamente. As tias e primas vão saindo, combinando um chá com biscoitos que nunca vai acontecer. E os amigos que contavam histórias alegres sobre o defunto, esses saem trocando telefones para continuar as histórias mais tarde, num bar ou num restaurante. Naquelas três horas, entretanto, ninguém estava realmente lá. Todos cuidavam de suas vidas, ladeando a morte do anfitrião. Ele, em toda sua inércia, é o único que estava ali sinceramente. Ainda que por falta de opção.



Deixe seu Comentário