Despertador

25/08/2011 Postado em Contos, Textos

Cala violentamente o despertador com um tapa certeiro à esquerda. Só mais cinco minutos. Tudo o que ela quer é dormir mais cinco minutos. E confia no seu companheiro barulhento para impedir que se atrase. Não devia. Ou devia ter um modelo que funcionasse a pilhas. A companhia elétrica, afinal, não é nem de perto confiável e, se o despertador funciona bem, ainda depende dela para simplesmente funcionar.

Mas não é o caso. Hoje ela vai se atrasar, mas não foi falta de luz e, a despeito das tentativas de arrebentar aos catiripapos o plástico preto da coisinha estridente, não aconteceu nenhum defeito. Hoje, em sinal de repúdio à falta de reconhecimento e ao desleixo de seus usuários, os despertadores de toda a cidade resolveram entrar em greve. Movidos a eletricidade, a corda, à pilha, todos eles combinaram de não tocar uma segunda vez. Não atrasariam para o primeiro toque, de modo que aqueles que escolhessem levantar no horário não seriam prejudicados. Os demais… os demais estariam, com o perdão do trocadilho, em maus lençóis.

E os cinco minutinhos viraram quinze. Vinte. Sessenta. Aqueles sem intuição alguma foram condenados a passar a manhã toda na cama, até que o sol lhes queimasse a cara, até o sono fartar-se e ir embora. Ela tem a sorte de, sendo mulher, ter, no mínimo, a intuição característica do gênero. Eram oito horas quando alguma coisa em sua cabeça fez um clique e abriu-lhes os olhos. Abriram como se as pálpebras tivessem molas. Digno de uma cena de filme, daquelas em que uma reunião muito importante lhe aguardaria, ela teria esquecido de carregar o telefone e um  desastre anunciado aconteceria. Ou não anunciado, considerando que o despertador simplesmente não tocou.

Estávamos nos olhos. Abriram, sobressaltados. Torceu a cabeça para o lado, oito horas, pulou da cama como o gato escaldado do ditado, sem que ninguém tivesse lhe jogado água alguma. E aos pulos se vestiu. Pegou o telefone e jogou na bolsa sem ao menos perceber que o que tinha de bateria não era suficiente para até o almoço. O elevador também parecia atrasado. Os despertadores devem ter feito um estrago em seu edifício, porque isso a obrigou a descer, de salto alto, doze lances de escada. Passou pela portaria praguejando baixinho porque, àquela altura, o ônibus da empresa já teria passado. Uma hora depois? Com certeza, já passou. Chegou ao ponto, parou para descansar, os pés doendo da escada, a barriga vazia, o desespero de trabalhar em uma cidade próxima e não ter condução. E a reunião não era pesadelo de filme de Hollywood, ela tinha uma, mesmo. Mas o que não tem remédio, remediado está.

Alguns segundos depois, ela notou que algo bloqueava o sol, mas não deu importância. Então, o motorista do ônibus pediu que subisse logo porque ele tinha perdido a hora, o despertador não tocou. Curiosa com a coincidência, ela disse que o mesmo tinha lhe acontecido e ele retrucou. Ela era muito boazinha, o dele estava em pedaços àquela altura.



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