Crupiê

18/08/2011 Postado em Crônicas, Textos

Cresci ouvindo que a gente aprende as coisas. Essa frase teve variações como “por bem ou por mal”, “pelo amor ou pela dor” e outras tantas, variando de acordo com meu interlocutor. Lógico que a época em que mais ouvi isso foi durante a adolescência, fase na qual eu não fui menos aborrescente que a média. A medida real do meu potencial de tirar a paz alheia naqueles dias eu não revelo nem sob tortura pesada. Nem se me tirarem meu café e a internet. Mas uma coisa eu posso dizer: era tudo verdade. A gente aprende por bem ou aprende na marra.

Sempre me recusei – e continuo recusando – a aceitar o rótulo de bagunceiro. Reconheço que a estética do meu ambiente não é agradável aos olhos de muitos, mas sei que outros tantos partilham da minha experiência e, em seus cantos feios como filhotes de coruja, sempre encontram tudo muito rapidamente. A menos, claro, que alguém resolva pavimentar o caminho para a casa do tinhoso com um tijolo de boa intenção e “arrume” tudo. Quando isso acontece, a melhor palavra pra definir é um impropério cabeludo como taturana, mas uma maneira de definir a experiência é comparar à de um cego andando na própria casa, sem bengala, sem nada, depois de alguém ter a brilhante ideia de mudar todos os móveis de lugar. Um amigo tinha uma cadela cega e ela, coitada, sofria muito com isso. Imagine um humano, que não tem os ouvidos e o faro de um cachorro.

Então, aconteceu. Eu agora planejo, organizo e executo meu próprio trabalho e isso requer coisas como um arquivo organizado e disciplina, me levando a reaprender como arrumar as coisas. Por enquanto, isso acontece mais em uma pasta de impressos e no disco de meu computador, porque meu trabalho resume-se a texto. Mas quem imaginou que a arrumação material escaparia da reviravolta estava tristemente enganado. A vida se encheu da aparência caótica da minha organização e me mandou uma faxineira nova.

Uma boa maneira de resumir as capacidades daquela senhora tão dedicada é dizer que ela daria uma excelente crupiê de carteado. Sua capacidade de embaralhar objetos e muda-los de um lugar para outro, completamente aleatório, é algo surpreendente. E não é como se ela fizesse isso para me pregar peças, realmente faz com a intenção de manter a casa arrumada. Aos seus olhos, é bem verdade, mas arrumada. E aí, tesoura de escritório vai parar na cozinha, só para citar o exemplo mais brando. Agora, toda véspera dos dias em que ela vem faxinar, eu não durmo antes de garantir que tudo o que preciso estará à mão. A minha mão. Arrumo a mochila do computador como se fosse passar o dia na rua, mesmo que não arrede o pé de casa. Ordeno as coisas básicas. Faço pequenas arrumações quando dá tempo, para abrir asilo diplomático para objetos que, no momento, levam vida nômade duas vezes por semana. Eventualmente, algo some e só aparece uma semana depois. Um pouco antes, se ela lembrar onde colocou.

É claro que a culpa dos sumiços não é dela, é minha. E a minha esposa não sofre desse mal porque já tem o hábito de guardar tudo em gavetas. Então, como alguém que vivencia uma praga rogada por anos a fio e que finalmente pegou, gasto alguns minutos por dia descobrindo como ser organizado igual aos outros e a achar as coisas em seus lugares convencionais, como todo mundo. Definitivamente, não é o jeito fácil. Mas eu fui avisado.



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