Nostalgia

14/07/2011 Postado em Crônicas, Textos

Você deixa um trabalho que lhe ancorava ao chão, que lhe doía o fígado de tão desgastante. Você muda para uma casa maior. Troca seu carro por um mais moderno, mais confortável. E, contudo, olha para trás. E sente falta daquele percurso que fazia todos os dias até o trabalho. E, distraído, dirige e dá de cara com o portão de sua antiga casa, onde você já não vive. E, no momento de se desfazer do seu carro antigo, bate aquela pontada no peito, aquela secura nos olhos.

O ser humano tem uma dificuldade absurda de sair da inércia, mesmo que seja para melhor. Um apego inexplicável ao presente ou, já tendo chegado o futuro, ao passado. Todo raciocínio lhe diz que há algo melhor, mas o sentimento quer o velho. O conhecido. Esse apego tem muito de um medo do desconhecido que nos acompanha desde a primeira infância, quando acreditamos em monstros sob a cama e dentro do armário. Depois de grandes, bem, aprendemos que sob a cama, quando tem alguém, é um humano que não devia estar lá e, dentro do armário… não interessa quem está dentro do armário, isso é problema de cada um.

O apego saudável é nostalgia. Esse apego tolo é uma âncora, como a que lhe fez deixar um emprego ou aceitar sair dele, como o motivo da troca do carro, como aquela perguntinha depois que você reencontra uma pessoa que já foi importante na sua vida, por que terá sido que você rompeu com ela, e não consegue lembrar de maneira nenhuma. Mas traga seu passado para o presente e verá que aquele trabalho lhe punha doente, que aquele carro já estava cansado, que aquela casa tinha maus vizinhos e outros problemas e aquela pessoa tinha o mau hábito de roncar e de esconder outras pessoas sob a cama, por assim dizer.

Assim como abrimos janelas para tirar aquele ar opressor de um cômodo, deixar coisas novas entrarem em nossa história acrescenta vida, devolve cores a coisas que já tinham um tom envelhecido, devolve prazeres, nos faz redescobrir passeios a lugares que não vamos já há tanto tempo. Toda mudança é para o melhor. Eu nunca tive filhos, mas sou bom observador e desafio qualquer pessoa saudável a me dizer que o nascimento de um foi um evento ruim. Claro que põe a vida de ponta-cabeça. Grandes tecnologias nasceram por causa ou para evitar guerras, ninguém espere que um filho seja um evento sem impacto. Qualquer evento maior é um divisor de águas. Não as águas do copo meio cheio ou meio vazio. Isso é uma alegoria mais insana que um gato estar vivo ou morto dentro de uma caixa. A vida. Sua vida. A única pessoa que pode tornar sua vida um problema é você. E ainda vai precisar de muito esforço, porque tudo sempre nos leva adiante e para o melhor. Se você duvida, faça um retrospecto. Pode lhe surpreender, mas tudo está bem.



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