Ganhando o mundo

25/07/2011 Postado em Crônicas, Textos
Hoje é dia de publicação extraordinária. Este texto é datado de maio de 2006 e já esteve no ar em outro momento, motivo pelo qual não faço nenhuma recontextualização. Espero que gostem. :-)

Cavalheiros, fomos declarados ‘em risco de extinção’ e postos ao lado de mico-leão dourado e ararinha azul. E, por incrível que pareça, isso é bom. Em meio a uma população de menos-conversa-e-mais-ação, somos poucos e isso inspira cuidados. Até agora, nenhuma enfermeira peituda veio me oferecer colinho, mas numa terra onde corno é o penúltimo a saber (o último é o presidente), eu não me atreveria a perder a esperança. O perigo é terminarmos em cativeiro ou em uma exposição de taxidermia.

Credibilidade não é algo de que gozamos. Tem tanta imitação barata que finge por uns três meses saber como tratar uma mulher que já me habituei a caras de espanto com atos corriqueiros como abrir uma porta ou oferecer um braço. A coisa tá preta, cambada. Somos peças de antiquário que elas ficam com medo de quebrar ou o videocassete que elas não sabem programar. O cavalheiro não é como cabeça de bacalhau ou enterro de anão. É um homem distinto que segura a alça do caixão numa mão e a cabeça do bacalhau na outra.

Queimar cuecas não é algo bonito de se ver nem vai ter o mesmo efeito de sutiãs em chamas. Mas o hábito faz o monge – no caso, a falta do hábito. Elas desaprenderam a separar o joio do trigo e acostumaram-se com o gorgulho no feijão. Já cheguei a ouvir de uma amiga que gostaria de encontrar um cara bacana, mas que não sabia se lhe daria o devido valor. Que mulher não sabe o que quer é um axioma contemplado já desde Darwin, e isso até ajuda a quebrar a monotonia do diário. Mas não é o caso. Elas não conhecem o que querem, não sabem reconhecer. Terminam pedindo uma taça de cristal com champagne francês e contentando-se com sidra em copo de requeijão.

Detalhezinho quase desapercebido: Nós ou não existimos ou somos vítima da incredulidade. Justo. Mas não ficou faltando algo? Não ficou faltando achar na rua essas senhoritas que dizem que não existimos? Sim, sim… ficou raro achar mulheres que não ajam como homens na noite das cidades. Claro, dar uns pegas é ótimo. Mas não tá passando disso, e a convivência também é ótima. Mais importante, eu diria. A menos que estejamos falando de adolescentes com hipertricose palmar.

Essas moças que vão ao enterro do anão conosco devem estar entocadas em algum lugar. Existe raça de cão farejador que as encontre? Talvez uma mulher que já superou essa etapa possa nos dar o caminho das pedras. Nada de princesas, nada de meninas. Pedofilia é crime, pô. E seriedade não e sisudez. Tá, agora me arrumem seis dezenas que eu vou ali na loteria. Azar no amor, sabe como é. Uma sopa de bacalhau cairia bem, se eu gostasse de peixe.

Mas gosto de sorrisos. E de passar horas com alguém agradável sem ver o tempo passar. É a metáfora do braseiro e da cantada de que Einstein falou, acontece de não darmos conta de que passaram-se algumas horas, sim. Aí o menino do cabelo na mão reclama que legal é fazer a moça ver estrelas. É ótimo, mas no que uma coisa impede a outra? Não vamos esquecer que chega uma época em que nem a bala azul resolve mais. E ai, o que sobra? Quem é esse que começa a sair com uma guria resolvido que só vai sair até o fim do mês? Isso tudo pra quê, pra depois que o pega não for mais legal ir parar numa vara de família, olhando prum juiz, com cara de bunda? Eterno enquanto duro, mas também enquanto dure. E o lado que as pessoas andam desprezando é o que faz durar.

E ai? Continuo abrindo portas, é algo que faço sem mesmo dar conta. Continuo mandando flores. E vendo que não somos em número tão pequeno assim, muita gente age de igual modo. Mas as mulheres, ah, essas mulheres… quiseram tanto a independência que agora ficam pasmas quando lhes puxam uma cadeira ou um braço lhes é ofertado enquanto passeiam. Desejaram tanto o mundo e hoje contentam-se em ir até a esquina. Uma pena. Mas, de cá, já resolvi. Não convido mais para ganhar o mundo quem se contenta com uma esquina.



1 Comentário

  1. @CatBob disse:

    Tão verdadeiro esse se texto. Gostei muito.
    Já vi amigas recusarem um braço com a resposta grosseira: “Não sou aleijada.” Ridícula, patética.
    As mulheres estão muito “machos”. Cada um tem seu lugar na esteira da evolução, não é preciso provar nada a ninguém, mas tem gente que não vê nada diante de si, exceto umbigo.

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