Cinzas

07/07/2011 Postado em Contos, Textos

O mar. Parece-me um azul um tanto fúnebre, como se também estivesse de luto, como também fosse dele a minha dor. Não, não sinto dor, foi melhor assim, basta de sofrimento. Sim, sinto algo como uma saudade estranha, que me seca a boca, mas que lembra minha mente que lhe prometi não parar de viver, não havia tempo para lágrimas. Mas houveram lágrimas. O mar foi feito delas. Mas agora já é tarde para elas. Ela se foi e está bem, mas não voltará mais para casa, por isso tenho essa saudade. Olho uma última vez para as cinzas. Atiro-as ao mar. Até logo.

Voltei para casa, mas não dormi. Guardei apenas algumas coisas das quais ela mais gostava. Todo o resto seria disposto de forma a ajudar alguém. As jóias ficam para minha, nossa pequena filha. Pai, mamãe não vai mais voltar? Não, filha, acho que não. Mas você pode sonhar com ela sempre que quiser. Tome, ela pediu que deixasse você usar a aliança dela na sua corrente. Deitou-se ao meu lado. Você tá legal, pai? Vou ficar. Agora, vá tomar seu banho que você tem aula daqui a pouco.

Deixei-a na escola, não dê atenção se alguém lhe importunar. Tome, me ligue se quiser ir para casa. Ela sorriu igual à mãe, me beijou a face e saltou do carro. Almoçamos fora, e à tarde deixei-a com a avó, precisava ir resolver umas pendências. Uma coisa tem me deixado chateado. Todo mundo que me encontra olha com cara de pena, menos as beatas, essas me acusam de desrespeitar a memória de minha esposa, por não estar de luto. Ora, mas ela não está morta, seu corpo é que não pôde agüentar a devastação da doença que o matou. Fico imaginando o que minha filha está suportando no colégio. Haja paciência.

Minha sogra não pensa como eu, fez questão de pedir ao padre uma missa de sétimo dia. Saí de lá satisfeito, ela disse que sonhou com a filha pedindo para esquecer a missa de um mês, já basta. Pai, hoje sonhei com mamãe. Ela disse para tentar lhe convencer a arrumar uma namorada. Tá, filha, vou pensar. Desde que ela foi, eu não sonho com nada. Me deitei tentando mudar isso, nem lembro quando peguei no sono. Sonhei. Um jardim, como o de casa. Ela estava com uma roupa branca, bonita. O que falei à nossa filha é sério, você não pode continuar só. Mas eu não estou, ela me faz companhia. Você sabe do que eu falo, você precisa de alguém, e ela precisa de uma presença feminina em casa, não é sempre que posso vir. Então tá, mas me dê mais um tempo para me habituar à idéia de sua ausência.

Foi real demais para existir qualquer dúvida. O que ela me pediu, no entanto, vai me dar um pouco de trabalho para pôr em prática. Tento me interessar por alguém, mas nenhuma tem dado certo. Pai, esquece isso, enquanto você procurar, ela não vai aparecer. Vem, vamos na esquina tomar um sorvete, uma hora ela aparece. O meu é de chocolate, como ela gostava. Então eu quero de flocos, igual você gosta, pai.

Vinha em nossa direção uma mulher, muito bonita, empurrando um carrinho de bebê. Ele sorriu para minha filha, ela se derrete toda quando vê uma criança. Sua mãe veio falar comigo enquanto os dois trocavam sorrisos. Você era o marido de Olga? Sou. Uma mulher e tanto, pena ter sofrido tanto. É. Seu filho? Sim, e ela é sua filha? Minha e de Olga, Luísa. O pai de Fred se mudou para o exterior depois do divórcio. Fugiu para escapar da justiça, não quer pagar a pensão.

Seus olhos tinham algo de triste, que ela tentava esconder. Víamo-nos várias vezes na semana, mas só resolvemos sair depois de um mês de pressões de Luísa, que dizia agir a pedido da mãe. Fomos a um restaurante italiano ao qual costumava ir com Olga. Noite agradável, embora ambos tenham se esmerado em não exceder na aproximação.

Mais duas semanas, resolvemos assumir, para o escândalo das beatas que passam o dia empoleiradas nas janelas, assuntando a vida alheia, e para a felicidade de Luísa, que viu a possibilidade de ganhar um irmão. Devagar com o andor que o santo é de barro… Esta noite, contudo, deixei as preocupações de lado. Luísa e Fred dormiram com minha sogra, e foi uma noite a dois como não tenho há muito tempo. Mas o jeito triste dos olhos de minha nova namorada não sai de minha cabeça. Será que só é pelo casamento que deu errado e a fez sofrer tanto?

Mais umas semanas, o ano letivo de Luísa acabou. Ela consentiu em ficar com Fred e a avó uma semana para que pudéssemos viajar sozinhos e descansar um pouco. Deixei para dar a notícia de última hora e pegar-lhe de surpresa, já tinha tudo arquitetado há mais de mês, iríamos visitar a Alemanha, ela sempre mostra interesse em uma eventual viagem à Baviera, conhecer a arquitetura gótica alemã de perto.

Pela primeira vez em todo o tempo juntos, vi seus olhos brilharem, quando lhe mostrei a passagem e falei o roteiro. Adiantamos nossos passaportes, e partimos no início de dezembro, para voltarmos antes do Natal. Novamente notei algo estranho em seus olhos, a forma com ela olhou pro chão pela janela do avião quando decolamos. Ela pareceu aliviada por estar deixando o país. Por mais que goste dela, essa impressão me deixa cada hora mais confuso. Bem que Olga poderia me dar uma ajuda com isso… sempre foi a ela que recorri nos momentos confusos e difíceis.

Mas ela não esteve conosco, nem em lembrança, durante toda a viagem. Corremos o roteiro registrando tudo, vários albums cheios com as fotos. Não houve qualquer incidente estranho nas duas semanas que permanecemos fora, exceto o semblante dela quando perguntava pelo filho à minha sogra. Comecei a juntar as peças, mas ainda tinha algumas coisas que eu não percebia. Voltamos ao Brasil, a rotina, tudo de volta. Festas de fim de ano, tudo normal. Não tão normal quanto parecia, entretanto.

Logo na primeira semana do ano novo, Fred começou a ter problemas respiratórios. Uma pequena infecção, nada severo, mas logo depois de se curar, ele voltou a ter complicações. Desta vez, neurológicas. E ela nunca deixava ninguém ir com Fred ao médico, só ela poderia levá-lo. Nem eu. Estranho. Descobri o nome do médico e fui até seu consultório. Ele relutou muito em me dizer o que Fred tinha, mas consegui arrancar a  verdade, ou quase isso. Me explicou que o que tinha o garoto era uma degeneração do sistema nervoso, e que a mãe já sabia do que acontecia há mais de um ano. A surpresa veio mesmo quando ele me disse que, pelo diagnóstico feito, Fred não deveria ter mais que seis meses de vida desde então. Sobrevivia, portanto. Chego em casa, encontro mãe e filho na sala, ele mamando. Pergunto o motivo de não me ter dito o que se passava. Ela ficou aborrecida por eu ter ido perguntar ao médico, mas me disse que queria dar ao filho uma vida o mais próximo da normal enquanto houvesse tempo para ele. E, tendo conseguido isso com a ajuda de Luísa e de minha sogra, não quis que nada perturbasse o pouco tempo que lhe restara.

Fred ainda continuou vivo por mais tempo, superando em muitos meses o prognóstico dos médicos. Mas nada dura para sempre, e não seria diferente com a saúde artificialmente mantida dele. Morreu no seu aniversário de três anos. Curiosamente, ela não pareceu tão triste com sua partida, como se todo seu sofrimento fosse, na verdade, o sofrimento de seu filho, já que este recusava-se a expressar a dor que trazia em sí. Chorou, claro, mas quem saberá dizer se era tristeza mesmo? Creio eu que não. Mas não vem ao caso. O certo é que ela refez-se depressa da partida de Fred, e logo no segundo mês retomou sua vida normal. Casamos, somente no Civil. Luísa gostou da idéia do casamento, mas queria mesmo era um irmão para tomar conta, já que Fred não precisava mais de seus cuidados. Me contaria, anos depois, que não sofreu pela sua morte porque ele já lhe dissera em sonho que morreria. Acho que nisso já encontro um hábito.

Em coisa de sete meses de casados, acordei com um teste de gravidez usado em minha cabeceira, ao lado de um bilhete escrito “Parabéns, papai”. Incrédulo, liguei para ela e pedi que me dissesse explicitamente a notícia. Durante o resto do dia, ninguém conseguiu tirar meu bom humor, nem as beatas tagarelas.

Texto inédito, arquivo pessoal de 2001



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