Cheiro de tinta

28/07/2011 Postado em Crônicas, Textos

Do tempo da pré-escola, eu lembro claramente de duas coisas. Uma era o painel de madeira com letras de espuma que eu adorava usar e a professora ficava louca da vida porque eu tinha de participar das atividades de bê-á-bá com os colegas da turma, mas não queria de jeito maneira. Eu queria era formar as palavras que já tinha aprendido com as letras. A outra era o cheiro forte e característico do mimeógrafo que a escola usava pra imprimir nossas tarefas, uma mistura doce de álcool de cana com tinta que empesteava o ambiente sempre que a máquina era usada, incomodava um bocado de gente, mas que eu adorava.

Não é como se gostasse do cheiro do álcool. Até hoje, não gosto, embora sempre tenha em casa uma garrafa do mesmo tipo em casa, para limpeza, e me dá certo trabalho achar, às vezes, porque quase todos os mercados da região só vendem aquela porcaria diluída que serve apenas para evitar tragédias na casa de quem é descuidado o bastante para deixar ao alcance de crianças ou jogar direto da garrafa no fogo de uma churrasqueira. Não é o foco da minha ideia aqui, mas acho que é muito mais perigoso água sanitária que álcool a 92.8º e não apenas não existe restrição como, no mercado, suas garrafas ficam na prateleira mais baixa, bem ao alcance dos pequenos.

Eu associava aquele cheiro doce ao papel impresso, ainda úmido, com as frases alinhadas, num azul desbotado a princípio, depois mais intenso. E aquelas folhas nos eram dadas com lápis preto para completar palavras e outros exercícios dos quais, francamente, não tenho a mais vaga memória. Lembro-me de muito pouca coisa da minha infância, mas o que li sobre a intensidade da memória olfativa deve ser verdade, porque já se passaram vinte e quatro anos e o cheiro do mimeógrafo ainda vem fácil à memória, e é como se eu o sentisse mais uma vez.

Não sei o que me deu que resolvi ser escritor. Cresci numa casa de exatas. Mas há coisas que podem explicar o que me trouxe até aqui, como o tempo em que chegava ligeiramente atrasado depois do recreio porque estava escondido na biblioteca lendo um livro de capa dura, de couro marrom, no qual Jorge Amado contava sua infância e falava do Coronel Amado. Mais tarde, por dois anos, frequentei o escritório do padre que era responsável pelo jornal do colégio. Engraçado que muita gente que escreve tem paixão por datilógrafas antigas, mas eu gostava mesmo era de uma Olivetti elétrica que ele tinha numa mesinha disposta perpendicularmente à sua escrivaninha. Recentemente, tive notícias dele, e continua trabalhando com palavras, pelo que sei.

Hoje, com meus vinte e nove anos completos, acho impressoras a jato de tinta coisas úteis, mas sem personalidade alguma. Letras numa folha de papel qualquer caneta faz. O cheiro ionizado que o papel retém por alguns instantes depois de passar pelo cilindro da impressora a laser é o meu novo cheiro de mimeógrafo. Quando escrevo um texto e imprimo uma cópia para arquivar, é inevitável o gesto de cheirar o papel rapidamente, para capturar o que parece ser o rastro da materialização de uma ideia. É uma memória boa, como a do cheiro doce da tinta azul diluída em álcool ou o bolo de cenoura coberto de chocolate que a minha mãe fazia quando eu era menor e que eu teimava em querer comer ainda quente, mesmo sabendo que poderia fazer mal ao estômago.



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