No dos outros

30/06/2011 Postado em Crônicas, Textos

As histórias que ouvimos durante a infância costumam se dividir entre as que nos causam medo e as que se tornam parte de nosso caráter e nossa moral. São parte importante da influência ambiental sobre nossa formação e algumas merecem ser passadas adiante. Como a admiração que desenvolvi pelo sistema político japonês depois de ver uma notícia na televisão dando conta de um político corrupto que, pego em flagrante, admitiu seus crimes e… cometeu seppuku. Isso, o salafrário deu cabo da própria vida na esperança de salvar a honra da família.

Mas a história que eu queria passar adiante hoje é bem brasileira. Mineira, na verdade, do interior, e eu a escutei de um amigo da família há quase vinte anos. Então, havia essa pequena cidade e uma série de furtos vinha ocorrendo ao longo de várias semanas. Vigílias não pareciam adiantar para capturar o gatuno, que não furtava apenas objetos de valor, mas itens inusitados, como, dizem, peças de roupa íntima deixadas pelas mulheres nas cordas de varais. Não atesto a veracidade desse item em particular, mas acredito nela porque, bem, vamos descobrir.

Meses se passaram com a atividade noturna do gatuno de uma forma em que era mais fácil algo sumir por suas mãos que a lua aparecer. Uma noite, entretanto, alguém o viu chegando. Não lembro bem, mas acho que foi o mecânico da cidade. O larápio, que era magro de dar dó, não teve a menor chance contra seu captor. Saiu arrastado até o centro da cidade, onde foi apresentado aos moradores, boa parte deles já figurando dentre suas vítimas. O que eu sei sobre a história é que a punição foi discutida e considerada adequada pela população presente. Fizeram o infeliz beber uma quantidade irrazoável de óleo queimado e, em seguida, amarraram-no pelas pernas a uma árvore. Arriaram-lhe as calças. Colocaram uma vela… lá. Isso, onde o sol não bate. Acenderam o pavio e largaram o sujeito lá, a noite inteira. Quando o dia amanheceu, tinha a expressão de sofrimento d’um mártir e hemorroidas fresquinhas. Soltaram o sujeito, apenas para vê-lo subir as calças e desaparecer em tempo recorde, ainda que andando de um jeito engraçado.

Essa história sempre me vem à mente quando vejo um político que não sabe ou não quer explicar como, durante ou logo após o exercício de função pública, teve seu patrimônio multiplicado de maneira quase bíblica. Nós parecemos meio cegos para o fato de que eles roubam é de todos nós e, mesmo quando seu único crime é uso de informações privilegiadas, deixaram alguém roubar. Esse último é ainda mais insidioso por se comparar a um caseiro que abre a porta para o ladrão. Mas falar nessa gente e botar caseiro na história é um negócio perigoso. Morte mal explicada de prefeito honesto, então, nem se fala.

Me pergunto se temos óleo queimado e velas o bastante ou se não seria melhor trocar nossos políticos pelos japoneses. As velas seriam mais divertidas, claro. Afinal, no dos outros, é refresco.

 



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