Inquietude

23/06/2011 Postado em Idéias, Textos

O homem, nem bem alcança um objetivo, já começa a almejar algo novo. Isso não é um traço de caráter, é algo inerente à espécie e se manifesta individualmente em graus variados. Por mais que o sujeito negue, ele deseja algo. Dizer que somos escravos de nossos desejos é a definição de clichê. Não que sejamos escravos de verdade, o grau de manifestação dessa característica é o que define nossa relação com o desejo. Mas não há esse que, dotado de humanidade, seja desprovido de algo que lhe quebre a inércia. Se não por interesse próprio, por querer bem a outrem.

Essa introdução se presta a quebrar o gelo para falar de um assunto que considero essencial para qualquer pessoa que crie (e até poeminhas para cantar alguém num boteco são criações), tema que ainda não sei se encontrei a melhor forma de abordar. Excelência. O momento em que você olha para uma coisa e percebe que seu trabalho terminou. Aquela sensação boa do dever cumprido. Todo mundo que já teve um abacaxi de Itú pra descascar conhece esse sentimento. E todo aquele que cria sentirá uma realização que é prima desse sentimento em algum ponto da vida. Dizem que os pais sentem isso quando veem seus filhos com a vida encaminhada.

Quem diz não é e quem é, não diz. Não é uma frase despeitada para ser usada contra alguém que, sendo o melhor em algo, reconhece isso publicamente. Não. Destina-se àqueles que, carecendo de reconhecimento alheio, cometem o erro de se auto definirem. Há um ano, desde que deixei de militar na advocacia, me defino como escritor, porque é esta a minha profissão, é isso o que faço. Ninguém ouviu ou leu nada onde eu diga que qualidade de escritor acho que sou. E dificilmente isso acontecerá algum dia. Porque fui abençoado com a existência de figuras que transcendem o brilhantismo na área em que escolhi atuar, de maneira que, para cada vez que alguém me tece um elogio, três são os textos alheios que caem na minha mão e me forçam à conclusão de que tenho muito que crescer. Não descarto a possibilidade de ser um bom autor no futuro, mas nunca hei de me considerar um dos melhores, porque há tantos melhores que admiro e estou sempre tão distante deles.

Duas coisas, portanto, movem alguém que faz o que ama. A primeira e mais aparente é a paixão. Você começa a trabalhar e, não raro, perde a hora, esquece da vida lá fora. Um amigo viu a esposa comemorar quando ele precisou de um escritório maior e mudou do edifício que ficava defronte àquele em que vive. Trabalhar ao lado de casa fazia com que ele descesse para abrir a sala, voltasse para o café e, no decorrer do dia, passasse das nove da noite lá dentro. E ele não é o único exemplo que tenho para contar. A segunda coisa é o desejo de crescer, de ser melhor, de ver cada trabalho melhor que o último. Isso não lhe faz querer ser rico, não lhe faz desejar ser reconhecido na rua, mas é o que estimula sobrancelhas e faz olhos brilharem quando seu nome é pronunciado. É o que faz algum coitado inseguro escrever um bom texto e assinar com o seu nome porque é mais conhecido. É envelhecer e saber que sua vida não foi um filme desses que as pessoas saem na metade porque é chato ou incompreensível. Desejo aliado à paixão profissional é perseverança. E perseverança é perenidade.

 



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