Ducha

16/06/2011 Postado em Crônicas

Todo mundo, ou quase, tem uma história que não contaria nem sob tortura. Esta não é uma delas, mas para deleite daqueles que adoram ver um infeliz coçar o olho depois de pegar naquelas pimentinhas, das que ardem mais que pôr a mão no braseiro, ela é verídica. Sim, verídica. Não, eu não contei isso para muitas pessoas nos últimos quinze anos. Sim, eu estou dizendo isso para atiçar sua curiosidade. Para algo essa história tem de servir, afinal.

Foi há mais de dez anos. Em um edifício pequeno, como onde eu morava, é comum um maior envolvimento dos moradores na manutenção do prédio minha mãe foi síndica algumas vezes. Durante esses períodos, em algum momento de sua ausência, eu recebia profissionais de manutenção e destrancava portas para que eles trabalhassem. Quando terminavam o serviço, trancava tudo novamente e devolvia a chave ao seu lugar.

Em uma dessas vezes, a bomba de esgoto parou de funcionar. O próprio zelador do prédio sabia operar o comando da bomba e certificou-se de que não era ele o problema antes de qualquer coisa, de forma que o técnico foi chamado para fazer o reparo. Como a lâmpada que deveria iluminar a área da caixa de esgoto não estava funcionando e ficava num local alto demais para ser trocada com facilidade, alguém precisaria segurar uma lanterna para que ele pudesse enxergar. Isso era no porão do edifício, e ali é escuro pra danar, mesmo durante o dia. E, bem, eu tinha essa fixação por colecionar lanternas, de sorte que terminei servindo de poste de luz por um dia.

É importante mencionar que, tirando o óbvio mau cheiro que uma caixa de esgoto exala, eu não via problema algum em ficar ali. Sempre fui curioso com máquinas e a bomba não parecia estar queimada, o que me deixou atiçado para saber o que causou seu mau funcionamento. Era um modelo de submersão, fixado à escotilha da caixa de esgoto, de forma que havia um cabo elétrico entrando e uma mangueira saindo dela até a tubulação de esgoto da companhia de água. O técnico não demorou a desconectar o cabo elétrico e folgar a conexão da mangueira, que parecia uma daquelas de aspirador de piscina, só que em um calibre maior, algo parecido com o cruzamento entre um conduíte daqueles amarelos, de eletricidade, e um cano de esgoto, daqueles brancos. Com a bomba totalmente desconectada, faltava desparafusar o suporte da escotilha e removê-la da caixa para saber por que havia parado.

Um pano de chão. Eu tenho a imaginação bastante fértil, mas até hoje não consegui imaginar uma forma de um pano de chão inteiro, daqueles feitos de saco de algodão que se compra no supermercado, foi parar dentro da caixa de esgoto. Nenhuma que respeite as leis da física, pelo menos. A única coisa que eu sabia com certeza é que ele só podia ter descido pelos canos, por mais perturbador que isso possa parecer. O danado estava completamente enroscado no rotor da bomba e nem ofereceu resistência quando o técnico o puxou de volta. Testada em seco, a bomba operou normalmente, e o problema estava resolvido. O dela. O meu estava para começar.

Diante do inusitado pedaço de pano fisgado pelo rotor da bomba, a curiosidade atiçou a nós dois. Ele me confessou nunca ter visto algo parecido em todos os seus anos de atuação naquele ramo. Considerando que esse tipo de profissional vê coisa do arco da velha com alguma frequência, isso torna o pano de chão ainda mais inusitado. E em uma passada de lanterna pela escotilha da caixa de esgoto nós vimos uma esponja de lavar pratos, alguns absorventes e outras coisas que achei muito nojentas de se ver, mas que, essas sim, ele estava acostumado a encontrar em seu cotidiano.

Consumado o curiosicídio, se assim eu puder formar um neologismo só porque me deu vontade e porque mereço, ante ao ridículo que estou prestes a me expor, ele recolocou a bomba no suporte e fechou a escotilha. Em seguida, fixou a mangueira na saída da bomba e ligou o cabo elétrico aos seus terminais. Fora o pano, ela estava prestes a empurrar para a rede de esgoto novamente todas aquelas coisas que as pessoas, sabe-se lá como, conseguiam enfiar tubulação abaixo. Junto, claro, com aquelas outras coisas que sabemos bem como vão parar lá dentro, mas essas são a razão da existência da caixa, de forma que é desnecessário detalhar mais além.

Traumático que foi o evento a ser narrado nas próximas linhas, eu devia simplesmente interromper a narrativa ou começar uma digressão de uns dois parágrafos. Mas, como dizem, a melhor maneira de remover um esparadrapo é puxando de uma vez. Claro que quem fala algo do tipo nunca se permitiu ser cobaia da própria teoria e deve usar um algodão encharcado de éter, mas é a tal da pimenta no olho alheio. Vou acabar com isso de uma vez. No parágrafo seguinte.

O técnico foi até o comando para dar partida na bomba. Ela entrou em funcionamento normalmente, como se nunca tivesse parado, e pude observar que aquela animação dos tubos pulsando enquanto bombeiam um personagem de uma ponta à outra num desenho animado não é inteiramente fictícia. A cada empurrão da bomba, a mangueira se mexia leve mas firmemente, como se alguém lhe desse um tapa. E ela fez isso umas dez ou doze vezes até eu perder o interesse na hidrodinâmica daquela nojeira subindo tubo acima. Logo depois disso, tive a oportunidade de descobrir o que acontece quando a braçadeira de uma bomba não é bem apertada. Oportunidade que eu teria cedido a qualquer um, diga-se de passagem. Em especial ao técnico, que foi o mão-frouxa responsável por não parafusar aquele treco direito.

A mangueira soltou-se da bomba com violência e por sorte não veio na minha direção. Sorte, porque já me bastou o passo seguinte. Imagine o movimento que a água faz quando é bombeada em um chafariz, na vertical, bem no momento em que a gravidade vence a pressão e ela verte para os lados. Agora, imagine que você está dentro do chafariz. Agora, imagine que não é água, mas esgoto. Pronto. Essa foi a forma mais discreta de narrar o meu infortúnio. Três banhos seguidos, à base de muito sabão, escova e bucha vegetal, foi o que custou para me limpar do meu momento “tartaruga ninja que tropeçou voltando para casa”. Duro foi me livrar da memória do cheiro. E eu ainda fiquei feliz de minha lanterna estar com o técnico na hora do, hum, banho, porque, diferente das minhas roupas, salvou-se da lixeira. Desse dia, só me aproximei daquela maldita caixa depois que ela foi desativada em prol de uma ligação direta do edifício ao sistema do emissário submarino.

 



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