Segundo domingo

05/05/2011 Postado em Contos, Textos

As flores esperam caprichosamente arranjadas. Buquês de rosas vermelhas, amarelas e brancas, ikebanas de gérberas vermelhas, jarros de orquídeas brancas. Nem bem nasceu o sol e o florista abriu suas portas, já com um cliente à sua espera.

O ambiente frenético já sinalizava que ele próprio não poderia dispensar a equipe e chegar para o almoço a tempo. É dia das mães, e a bancada teve de ser inteiramente reposta antes das nove da manhã, enquanto um misto de calma e impaciência permeava a clientela. No chão, nos fundos, pedaços de caules, folhas, retalhos de fita – não era comum a bagunça no dia-a-dia, mas um minuto pode significar um cliente atendido, a depender da pressa dele.

Maridos, filhos e filhas, genros e noras, todo tipo de gente vê um motivo para presentear uma mulher com flores num dia como este, e isso se expressa na fartura de baldes cheios de flores prontas para serem arrumadas e entregues. As cores das flores ajudam a expressar sua intenção, mas as vermelhas, especialmente as rosas, são as preferidas e as pétalas rubras estão por toda parte. As queimadas são removidas das flores enquanto postas em arranjos e buquês, e o chão fica salpicado delas. Na frente, piso limpo e balcões extras que deixam a loja apertada, clientes andando em meio aos lírios, begônias, margaridas e crisântemos plantados. As flores do campo azuis, misturadas às rosadas, amarelas, brancas e vermelhas, parecem denunciar a artificialidade de seu azul, como não querendo passar por uma realmente azul.

Já passa das quatro da tarde, agora. Ainda há clientes tardios, mas não há mais flores. Alguns pedem para seus funcionários verificarem se nada restou mesmo, mas a resposta, invariavelmente negativa àquela altura do dia, lhes soava dura demais aos olhos. O florista, então, baixou as portas de sua loja, agradeceu aos funcionários depois de tudo limpo e arrumado, e tirou da única geladeira que não foi aberta durante todo o dia alguns belos buquês e um arranjo ainda mais bonito, feitos por ele próprio antes de abrir a loja, com as melhores flores. Entregou cada um dos buquês para seus funcionários, pegou o arranjo e rumou à casa de sua mãe, que o esperava para a ceia.

 

Texto originalmente publicado em maio de 2010.

 



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