O Padroeiro

12/05/2011 Postado em Contos, Textos

Existe esse grupo, dentro da espécie humana, dotado de uma singular deficiência visual a que é apropriado chamar miopia quadrienal. Curiosamente, tal incapacidade de enxergar coisas mais distantes que o período de quarenta e oito meses é comum em um tipo específico de profissão na terra do poeta que disse que sabiás cantam em palmeiras. Pessoalmente, eu nunca vi um sabiá pousar numa palmeira, mas já testemunhei vários portadores de miopia quadrienal nesse campo profissional a que me refiro. Um que, estranhamente, também é marcado pela repetitividade de figuras, por razões que me furto a analisar no momento. A política nem sempre é dotada de razão, afinal.

Enfim, havia um evento de porte jamais testemunhado por quaisquer dos políticos viventes naquele tempo e quem quer que estivesse no comando da máquina pública faria o possível para assinar a chegada daquela festa em sua terra. E, dito isto, mandaria fazer toda sorte de obra e adaptação que se fizesse necessária à realização do evento, mesmo que o custo fosse a falência dos cofres públicos ou o desmoronamento da estrutura meses depois. Contanto que estivesse tudo lindo e maravilhoso na época dos festejos, era disso que o povo iria lembrar. Defunto não tem defeito, dizem, e político sem mandato só é lembrado pelos pontos muito altos ou muito baixos de sua gestão. E até dos muitos baixos as pessoas esquecem, basta uma festinha meses antes da eleição, pois, se a memória dos políticos é quadrienal, a do povo, a do povo… essa dura uns seis meses, e olhe lá.

A capital dessa terrinha conseguiu ser uma das cidades-sede do evento, que aconteceria por todo o país. E, para isso acontecer, viu seus governantes assumirem compromissos com a comissão organizadora do evento que, em sã consciência e pretendendo cumprir a palavra, homem nenhum assumiria. Basicamente, eles prometeram fazer em quatro anos o que prometem ao povo por quase um quarto de século. Talvez mais, mas atenhamo-nos ao período de vigência da nossa Constituição. Prometeram construir um estádio à altura do evento, prometeram transporte público de qualidade, hospedagem suficiente, segurança, policiamento… talvez, e é um talvez, hotelaria seja a única promessa que não foi oferecida já requentada e com perfume de bolor.

Correu o primeiro dos quatro anos e pouca coisa se fez. O que anda mais depressa é o estádio, que é a promessa da qual eles não se livrariam jamais, porquanto realmente essencial para a realização do evento. O metrô, que desafogaria o tráfego de uma das mais importantes vias arteriais, logo será um adolescente, inclusive nas características: custoso, levantando questionamentos a todo tempo, forçando seu caminho mesmo que saia do nada e rume ao coisa alguma e faz questão de ser notado, ainda que em vazia imponência. Ao longo dos meses, a obra consome mais dinheiro e a velocidade da colocação dos componentes levanta a possibilidade de que tudo seja feito de maneira artesanal, com instrumentos pré-industriais.

O segundo ano terminou, deixando apenas mais dois, sendo que o último coincidiria o período eleitoral, o último ano de mandato de um governador que não poderia concorrer à reeleição naquele pleito e, portanto, precisava deixar sua marca, e um evento internacional de grande expressão popular acontecendo na cidade, mas que não era nem carnaval nem festa junina. Essa perspectiva do triplo alinhamento tornou inimigos em aliados, ainda que meramente por força da conveniência, e, na festa da padroeira da cidade, caminharam juntos prefeito e governador, braços dados, sorrisos para os fotógrafos e frases discretamente grunhidas de maneira a não serem percebidos.

Ambos haviam se dado conta de que não era possível cumprir todas as promessas a tempo, especialmente quando já haviam prometido mais coisas por cima, como um sistema de transporte alternativo ao ônibus urbano, o que ainda traria a ira do muito forte sindicato dos concessionários do transporte público a menos que seus membros fossem devidamente compensados. Basicamente, não havia oferenda que bastasse para tantos deuses. O prefeito, também inelegível para o próximo mandato e em ano eleitoral municipal, queria que as coisas dessem certo porque pretendia eleger um aliado e não ia ficar nada bem para ele deixar um abacaxi desses para um colega de partido. Da catedral de Nossa Senhora da Conceição da Praia até a Basílica do Senhor do Bonfim, os dois elucubraram da forma mais discreta possível, quase rendendo a ambos uma cãibra facial pelo esforço de falar sem aparecer nas câmeras, procuravam uma solução para o que, já era consenso, estava fora do alcance das mãos humanas.

Decidiram apelar aos santos.

É uma terra livre, pensaram. Um era ateu, o outro protestante. Mas o povo acredita em tudo que é sagrado, mesmo quando diz que não, e eles não seriam tolos de contrariar a sabedoria popular. Deixaram seus assessores trabalhar a questão antes de decidir o que fazer. Ao cabo de um mês, bem por volta do carnaval, quando todos os santos tiram férias bem longe da cidade e o tinhoso arma seu circo, resolveram que Nossa Senhora da Conceição era uma entidade muito respeitável, mas eles precisavam mesmo era de alguém especializado na sua causa. Considerando quanto tempo faltava para o evento – menos de 24 meses – e a seriedade da questão, pensaram se não era melhor pedir ajuda a esse nobre senhor que atendia pelo nome de… Expedito.

Se, contudo, era comum, naquela terra, testemunhar a ocorrência do sincretismo religioso tanto quanto de gambiarras para suprir a falta de planejamento, Santo Expedito não parecia muito à vontade com a ideia de ser padroeiro de última hora de um causa cuja urgência era o sumidouro de algo que começou com uma caneta e muito falatório. As oferendas eram muitas, até vela de eucaristia acenderam em sua intenção, mas, como entidade de reputação pura como a um santo proclamado bem cabe, não podia coadunar com nada daquilo. Nem mesmo o desagravante olhar piedoso de Nossa Senhora da Conceição seria capaz de resolver tamanha bagunça, de modo que pouco podia ele, um santo, onde nem a Mãe conseguiu nada. Não se tratava das obras, entretanto, mas de colocar algum juízo na cabeça daqueles pobres homens que tão importantes se julgavam.

As obras eram coisa além de sua alçada. E ele também tinha criado antipatia por aquele metrozinho safado que olhava pra todos com aquela expressão desafiadora de “tá olhando o que?”. Com tanta empáfia, concluiu o santo, jamais iria a lugar algum.

De fato, não era só o metrô que parecia empacado. Ainda era o estádio a única obra com três equipes alternando-se em turnos no canteiro. Fora isso, progrediam somente os empreendimentos privados, especialmente de hotelaria, que já seriam feitos de uma forma ou de outra e, portanto, encontravam-se alheios a toda aquela confusão. E foi assim que os meses transcorreram no terceiro ano dos preparativos, até as próximas festividades, que começavam no Natal e iam até o carnaval. E, como não houvessem julgado necessário avisar sobre a mudança no patronato da cidade, lá estavam o prefeito e o governador, ainda em armistício e em meio ao povo e à imagem de Nossa Senhora da Conceição, em cujo rosto alguém podia jurar ter visto um sorriso de Mona Lisa, mas que poderia bem ter sido apenas uma breve sombra.

O evento seria em apenas mais alguns meses e, contudo, o transporte público ainda era capaz, mal e mal, de carregar a população residente, ao passo em que vistoriar todos os taxis parecia algo interminável. O Metrô seguia agindo como um adolescente rebelde e sua maior utilidade era a de sanitário para aves. As novas ideias para impedir a implosão dos serviços públicos seguiam em seu estado original, o de ideias. A polícia continuava com o mesmo efetivo que emula um cobertor capaz de cobrir apenas a cabeça ou os pés, nunca ambos, fato apurado todo carnaval, quando, em grande parte da cidade, era mais fácil encontrar um cortejo fúnebre para um anão que um policial. E, como tanto um como outro gastou mais com propaganda que com serviços públicos, havia pouco dinheiro para mudar o cenário àquela altura. Reunir-se-iam com seus assessores novamente, em busca de uma solução. Parcial que fosse, haveria de haver alguma.

Por dias a fio, pesquisas, levantamentos e estudos foram feitos a pedido do governador e do prefeito. Após alguns dias, mais uma vez às portas do carnaval e, portanto, na ausência dos santos, que nada queriam com aquilo, os assessores avisaram seus chefes de que estavam prontos. Haviam encontrado a melhor solução possível. Considerando o tamanho do abacaxi, os dois poderiam ter demorado menos, mas ainda foram tão rápidos quanto alguém que responde a um chamado de intestinos enfurecidos. Foram recebidos por suas equipes e a materialização do óbvio. Chegou-se à conclusão de que a medida adotada um ano antes não foi uma boa ideia. Como ficou claro, Santo Expedito não era a pessoa mais indicada para resolver a questão das promessas descumpridas. Assim, eles estudaram um novo ângulo, com propostas que foram reunidas em um projeto de lei a ser remetido à Assembleia Legislativa e outro à Câmara Municipal, ambos enfadonha mas devidamente explicados, ponto a ponto. Como último ponto, abordaram aquilo que concluíram ser a alteração mais importante. Em vigor imediatamente e revogadas todas as disposições em contrário, era reconhecido, tanto pelo município quanto pelo estado, como padroeiro, São Judas Tadeu.

 



Deixe seu Comentário