Encontro

26/05/2011 Postado em Contos, Textos

A senhora na cadeira ao lado me pergunta há quanto tempo estou esperando. Olho em volta, a sala de espera cheia, e lhe respondo: “mais do que o necessário.” Ela não parece entender e sorri um sorriso quase histérico, típico de quem é castigado pelo tempo com um mergulho na fonte da incerteza. Abaixo a cabeça e continuo o que estava fingindo fazer. Fingindo. Verdadeiramente, não estou lendo o volume sobre meu colo. Estou contando, em silêncio, segundo a segundo, quanto tempo espero. Tem sido assim há muito tempo. Muito tempo.

Não me escondo de ninguém, mas devo dizer que normalmente passo despercebido. Especialmente em momentos como este, ninguém encontra em minha presença algo agradável, de sorte que preferem, simplesmente, ignorar a minha figura paciente. Hoje, entretanto, fiz-me mostrar, como mais um dentre tantos na sala de espera, e cuidei de solicitar à auxiliar de enfermagem que me listasse como um visitante.

Não quero nem necessito avisar-lhe de minha chegada. Não com o propósito de criar-lhe apreensão, pelo menos. As pessoas temem o desconhecido, e ele não merece esse medo desagradável. Visito-lhe, portanto, para que me conheça e, assim, não mais tenha motivo para temer qualquer coisa.

A ansiedade das pessoas cá fora pode ser medida pelo compasso de som neutro qual voz de telefonista dos monitores cardíacos que entram pendurados nas macas dos novos pacientes. De onde espero para ver meu ilustre visitando é possível sentir os olhos apreensivos de quem veio seguindo uma maca por todo o corredor quando ela some de suas vistas à medida que a porta se fecha. Os pacientes muitas vezes não sabem de nada, estão em outro lugar enquanto seus corpos são tratados, mas menos ainda sabem aqueles que por eles aqui estão. É diferente de uma enfermaria de cuidados paliativos, onde a dúvida é quando e não se. Lá, não há surpresas e o foco é o conforto do paciente. Aqui, não. Aqui, há esperança. Sempre a encontro aqui, seja ao lado de uma cadeira da sala de acompanhantes, seja junto à maca de alguém. Sua intenção é boa, sempre é. Mas ela sempre quer que as coisas sejam da melhor maneira possível e as pessoas distorcem esse entendimento da maneira que suas mentes preferem, frequentemente acreditando que o melhor é ficar aqui, a qualquer custo. Aí reside o sofrimento.

O propósito da minha presença sensível aqui é diverso dessas reações, contudo. Em uma demonstração de valor e tremenda capacidade de fingimento, aquele por quem vim convenceu a todos que estava bem, que já era mesmo hora e que não sentia mais dor. Somente a última parte é verdade, cortesia dos médicos. O resto é puro fingimento para evitar que sintam uma dor tão inútil quanto intangível, uma dor que assume a forma da impotência diante da debilidade alheia e é recheada de uma saudade que ainda não devia existir e uma dúvida corrosiva sobre o destino daquela pessoa tão querida. Ele, então, praticamente me convocou quando, com uma encenação, venceu tão poderosa tristeza e a enfraqueceu dentro dos seus, qual um vírus que virou vacina. Não é um ato que passa despercebido, nem sou o tipo que nega reconhecimento ao mérito alheio.

Levanto prontamente ao ouvir chamarem o nome que dei à enfermeira ao chegar e sou conduzido ao seu leito. O que segue é uma coisa tão estranha quanto bela. Fitando-me com estranheza inicial, ele sentiu um calafrio do cóccix ao pescoço ao apertar levemente minha mão direita e, então, soube. E vi escorrer de seus olhos toda dúvida como uma chuva, a dissolver a nuvem que obstruía a visão da serenidade. Finalmente pode sentir a verdade nas próprias palavras. Sorrimos discretamente e ele quer saber a que me deve a visita em pessoa. “A saber a verdade mesmo quando ignora possuir esse conhecimento”, lhe respondo. E digo, saindo, que fique mais um pouco com os seus, já que está confortável. Não tenho pressa.

Seis horas depois, ele me encontra no corredor, vestido no fraque que usou em seu casamento, e me diz que está pronto.

 



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