Anuncie Aqui

19/05/2011 Postado em Textos

Hora dessas, acabo mandando costurar a uma camisa um rótulo daquela nova garrafa de 3 litros de Coca-Cola. Devidamente protegido por uma camada de vinil transparente. Duvido que ninguém pergunte onde pode comprar uma igual, vai ser um sucesso.

Ora, eu estaria apenas seguindo uma tendência de mercado. Se é que a própria Coca-Cola não já pensou no assunto. Claro, eles vendem a grife da marca, com camisas estampadas com a tipografia clássica, mas a ideia do rótulo é fantástica. Ou fantárdiga, como dizia um palhaço que mudou de profissão e nos deixou a sua antiga. Porque, efetivamente, só pode ser piada.

Mas nem tudo que pode é e nem tudo que é, pode. Basta um passeio de fim de semana ao cinema de sua preferência para constatar que as pessoas pagam – e pagam caro – para vestir a marca dos outros. Acredito que tenha nascido disso a ideia dos Shoppings Centers de colocar totens de anúncios nos corredores, deve ser para constranger menos os clientes. Muito embora alguns pareçam bastante orgulhosos de vestir uma malha de mais de cem reais com o nome de um estilista costurado à altura do peito. É sério, achar uma camisa casual sem estampa berrante para comprar tem sido cada hora mais difícil. Você paga por algo superfaturado e ainda faz propaganda para a loja. É o Windows do vestuário.

Sem rebeldia, fãs da Microsoft. Eu uso o Windows 7 que veio em meu computador e, na verdade, gosto muito dele. E vocês não são os únicos a manter fã clube de empresas de tecnologia. É só dar uma volta num estacionamento, qualquer um, que devem achar ao menos um carro com uma maçã branca estampada na mala. Nada contra quem compra usa produtos da Apple ou de qualquer marca, desde que não envolva trabalho infantil. Como não tenho nada contra quem come no McDonald’s todo dia. Isso é com o consumidor e suas artérias. Mas essa cultura do “tô pagando” só fica legal em programa humorístico, e olhe lá. As pessoas mal sabem usar o que compram, mas como tá na moda, dane-se, vão e compram. Isso é com roupa, eletrônicos, carro… tudo. Saio na rua e tem meia dúzia de anúncios presos a suportes chumbados com concreto ao chão e duas centenas em pleno movimento. Enquanto isso, eu penso em seguir a tendência do senhor que colocou uma placa de “NÃO VENDO, FAVOR NÃO INSISTIR”, em letras garrafais, no muro de sua casa, e estampar uma camisa com algo como “NÃO Anuncie Aqui”.

Logo quando a Apple soltou a App Store, um programador engraçadinho criou um programa que batizou de “I am Rich” (eu sou rico – eu não, é o título do programa). Vendeu um monte. Só que o danado não faz rigorosamente nada de útil. Na verdade, ele não faz nada. E, contudo, vendeu um monte. E tem o caso da famosa marca do jacaré. As pessoas pagam duzentos reais, talvez mais, por uma camisa deles. Você cai na besteira de mencionar o preço e logo um consumidor da franquia brasileira deles dispara que lá na Europa custa 70 euros, não é tão mais cara assim, aqui. Bom… é verdade sobre quanto custa lá fora. O que eles ignoram é que o preço lá é compatível com o salário mínimo de, em média, 800 euros, segundo levantamento que fiz há dois anos. Aqui, não chega a 600 reais, e, se chegar, ou bem a classe média implode ou bem haverá um desemprego em massa nos setores por ela sustentados, porque, com o que o governo nos cobra de impostos, não sobra muito, né. Uma vez, um baiano que mora na Alemanha me disse que o governo alemão leva embora mais de dois terços de tudo que você ganha. Mas ninguém paga plano de saúde, escola, nada disso. Aqui, o governo leva quase um terço só de IR, fora o que embute nos produtos que consumimos e as tributações cascateadas que existem, ainda que proibidas. Num contexto desses, não é apenas um disparate pagar tanto por uma camisa. É pior que isso. Claro, vai ter gente que vai dizer “o dinheiro é meu, eu trabalhei, eu compro o que quiser”. Mas, ó: as daqui nem são de algodão egípcio, como as de lá. Eu perguntei.

Quem diz que ganhou e gasta como quer tá certo, e eu não tenho nada com isso. Digo, eu enquanto indivíduo. Como membro de uma sociedade, acredito que caiba o questionamento. Bolsos fundos, mentes rasas? Não creio, é um raciocínio simplista e generaliza demais. Até porque muita gente, muita gente mesmo, se permite esses luxos a prazo. Não que eu realmente considere luxo fazer propaganda pros outros. Realmente penso que quem deve receber é quem faz, e não quem se beneficia. Também não tenho nada contra os produtos da Apple. Eu mesmo tenho alguns e conheço gente que tira leite de pedra com o iPhone, especialmente considerando a vergonhosa duração da bateria dele (quem quiser reclamar disso, primeiro, bata a autonomia dos 1.5Ah do Bold 9700 que eu uso. 30h sob uso intenso). O chato é você ser obrigado a, compulsoriamente, saber as preferências de consumo das pessoas, porque elas fazem questão de esfregar na sua cara. Daqui a pouco vai ter gente exibindo a marca do papel higiênico de sua preferência nas costas da camisa. Outro dia teve uma fazendo concurso premiando o vencedor com um jantar com um ator. Qual a distância entre as duas hipóteses? O que eu sei é que tirando meus eletrônicos, porque discuto sobre eles, dificilmente alguém que não me conheça bem de perto vai saber dizer a marca da minha calça ou das minhas roupas de baixo. Enquanto isso, tem gente que paga uma nota preta pra usar uma cueca que tem o nome do estilista no elástico. E faz questão que todo mundo veja. A seguir: cueca de fabricante de papel higiênico? Eca.

 



1 Comentário

  1. Nanda Teixeira disse:

    Ei Nando,
    Finalmente visito seu blog. Parabéns, orgulhosa deste meu primo!! Só para constar, Coca-Cola também é marca de roupa. Comprei um casaco da marca. Agora não me lembro se em Boa Vista ou Venezuela. Nome só na etiqueta: Coca-Cola Trading Company – Atlanta, Georgia.
    Beijooo!

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