Archive for maio, 2011

Encontro

26/05/2011    Postado em Contos, Textos
 

A senhora na cadeira ao lado me pergunta há quanto tempo estou esperando. Olho em volta, a sala de espera cheia, e lhe respondo: “mais do que o necessário.” Ela não parece entender e sorri um sorriso quase histérico, típico de quem é castigado pelo tempo com um mergulho na fonte da incerteza. Abaixo a cabeça e continuo o que estava fingindo fazer. Fingindo. Verdadeiramente, não estou lendo o volume sobre meu colo. Estou contando, em silêncio, segundo a segundo, quanto tempo espero. Tem sido assim há muito tempo. Muito tempo.

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19/05/2011    Postado em Textos
 

Hora dessas, acabo mandando costurar a uma camisa um rótulo daquela nova garrafa de 3 litros de Coca-Cola. Devidamente protegido por uma camada de vinil transparente. Duvido que ninguém pergunte onde pode comprar uma igual, vai ser um sucesso.

Ora, eu estaria apenas seguindo uma tendência de mercado. Se é que a própria Coca-Cola não já pensou no assunto. Claro, eles vendem a grife da marca, com camisas estampadas com a tipografia clássica, mas a ideia do rótulo é fantástica. Ou fantárdiga, como dizia um palhaço que mudou de profissão e nos deixou a sua antiga. Porque, efetivamente, só pode ser piada.

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O Padroeiro

12/05/2011    Postado em Contos, Textos
 

Existe esse grupo, dentro da espécie humana, dotado de uma singular deficiência visual a que é apropriado chamar miopia quadrienal. Curiosamente, tal incapacidade de enxergar coisas mais distantes que o período de quarenta e oito meses é comum em um tipo específico de profissão na terra do poeta que disse que sabiás cantam em palmeiras. Pessoalmente, eu nunca vi um sabiá pousar numa palmeira, mas já testemunhei vários portadores de miopia quadrienal nesse campo profissional a que me refiro. Um que, estranhamente, também é marcado pela repetitividade de figuras, por razões que me furto a analisar no momento. A política nem sempre é dotada de razão, afinal.

Enfim, havia um evento de porte jamais testemunhado por quaisquer dos políticos viventes naquele tempo e quem quer que estivesse no comando da máquina pública faria o possível para assinar a chegada daquela festa em sua terra. E, dito isto, mandaria fazer toda sorte de obra e adaptação que se fizesse necessária à realização do evento, mesmo que o custo fosse a falência dos cofres públicos ou o desmoronamento da estrutura meses depois. Contanto que estivesse tudo lindo e maravilhoso na época dos festejos, era disso que o povo iria lembrar. Defunto não tem defeito, dizem, e político sem mandato só é lembrado pelos pontos muito altos ou muito baixos de sua gestão. E até dos muitos baixos as pessoas esquecem, basta uma festinha meses antes da eleição, pois, se a memória dos políticos é quadrienal, a do povo, a do povo… essa dura uns seis meses, e olhe lá.

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