Renato, ou O Profeta

07/04/2011 Postado em Textos

O ano era 1989 quando a Legião Urbana lançou seu disco “As Quatro Estações”. Questionamento e rebeldia nunca estiveram tão na crista da onda, e era quase lugar comum encontrar um jovem ouvindo Renato Russo cantar. Alcancei a época deles já quase no final, mas não é difícil perceber a relevância, além das trincheiras adolescentes, de um quarteto que, em meio aos anos 80 e seus discos de vinil e paquidérmicos aparelhos de CD que chegavam com tudo do Japão e dos Estados Unidos, conseguiu que rádios tocassem Eduardo e Mônica, na íntegra dos seus mais de quatro minutos, quando o normal era não passar de três. Simplesmente conseguir lançar uma música-conto desse tamanho em LP já foi um feito notável.

Quando Renato dizia cantar em português errado, era poesia. Havia um significado naquilo que ele dizia. Hoje, não se canta mais da mesma forma. Canta-se, fala-se, escreve-se em português errado. Lembro de já ter falado sobre isso, talvez já tenha escrito sobre isso, o exemplo da placa do Governo Federal misturando singular com plural*. Acontece que aquilo é o mínimo, tem coisa muito pior. Estamos, os brasileiros, emburrecendo.

Quando misturamos as pessoas numa frase, como tu ou você, é coloquialismo fruto de nossa herança das várias pátrias de cujos filhos somos filhos. Mas órgãos públicos errarem ortografia ou revisores de livros precisarem de revisão… isso é algo inteiramente diferente. Eu mesmo não sou nenhum filólogo. Cometo deslizes aqui e ali, o que ficou ainda mais fácil com a deforma (com d, mesmo) ortográfica, mas passo razoavelmente bem com o que consegui absorver das aulas de português do colégio e das coisas que li. Mas nosso tempo parece ser o da derrocada de um idioma que já era difícil quando as pessoas prezavam por sua integridade. Mesmo livros técnicos como os jurídicos já hospedam grosserias que são a prova não só da pressa do autor mas da completa negligência da equipe de revisão e edição.

E quem deve ser responsabilizado por um outdoor feito por agência publicitária (grande, estruturada) escrito errado? O departamento de criação, a revisão, a impressão ou o cliente, que aprovou? Complicado. E, de volta aos livros, sugiro uma simples equação para termos uma noção da gravidade da coisa: antes, as editoras que forneciam para o sistema público de escolas, estaduais e municipais, já eram alvo frequente de denúncia de negligência com o material distribuído. Agora, que até grandes editoras, vendendo livros consagrados internacionalmente, conseguem permitir que absurdos passem pela cadeia tradutor-revisor-editor e cheguem até você, leitor, como será que estão aquelas editoras que vendem o material usado na educação (sic) de um povo que, verdadeiramente, vem sendo educado muito mais por Pedro Bial que por Machado de Assis?

Cresci ouvindo frases como o “pense em um absurdo, na Bahia há precedente” do governador Octávio Mangabeira. Os absurdos, ao que tudo indica, alçaram nível nacional, e já há muito. A ponta do iceberg, hoje, é um par de deputados, eleitos pelos maiores PIBs do país, sendo um notório analfabeto funcional e o outro, autor de frases de teor estapafúrdio a um ponto em que chega a sinalizar a perda de freios morais típica da senilidade avançada. Ou a ausência de freios morais típica do mau-caratismo, vai saber. A deterioração generalizada do coloquial, oral e escrito, é reflexo de nosso desleixo. Saber, entretanto, se o cenário sócio-político atual é fruto disso ou se é o contrário, isso é mais complicado. Nossos avós estudavam latim. Nossos pais, francês ou inglês. Os alunos do ensino médio público, hoje, estudam… colorir mapas na aula de geografia política. Coisa que, salvo melhor juízo, eu já não fazia no primeiro ano de ginásio.

De maneira triste, portanto, vejo que Renato Russo foi profeta. Não me atenho às características de seus versos que encantaram a cabeça de tantos jovens que gostar de Legião Urbana era condenável, uma bitolação. Pois podem voltar a gostar, porque a moda agora é feita de bandas que vestem-se como um estojo de hidrocor. Não há risco de alguém em sã consciência tentar travestir-se com falsa intelectualidade ouvindo uma coisa dessas. Esse mesmo público escreve coisas incompreensíveis que, dizem, é o “idioma” deles. Combina com os Incentivos Fiscal da placa do governo na porta da Oi. E com o outdoor que erra cinco coisas diferentes em uma frase.

Que saudades do português errado do Legião.

* veja a menção aqui, no texto publicado em 17/03/2010. A foto da placa pode ser vista aqui.

 



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