Bonecos de Bolo (Parte III)

28/04/2011 Postado em Contos, Textos

Ela achou um bocado esquisito, entretanto, quando encontrou a dona da melhor loja de vestidos de noiva da cidade e ela lhe disse que tinha visto o escultor logo cedo, e que ele parecia estar muito bem. Não pelo que achou a senhora, mas por ele não ter mencionado nada. Provavelmente, era sobre alguma cliente em comum. Terminou esquecendo o assunto, absorta em trabalho. Uma noiva lhe havia encomendado uma ideia muito boa, mas igualmente trabalhosa. Servir os bem-casados em forma de mini bolos. A receita que escolheu requeria que fossem assados no dia, embora a massa pudesse ser feita com antecedência. Deu cabo do pedido, mas a recíproca foi verdadeira e, naquela noite, falou com seu escultor apenas por telefone e por uns poucos minutos. Tinha até sido convidada para o casamento que ajudou a preparar, mas faltaram-lhe forças.

O escultor também esteve bastante ocupado. Não confessaria nem sob tortura, mas seu trabalho misterioso estava prestes a ser concluído, e disso se tratava a visita da senhora que vestia noivas. Esculpiu algumas peças que estavam faltando ao longo do dia e, depois de secas, pintou-as e deixou na estufa para secar. Durante a tarde, preparou a caixa de madeira com forro espumado que acomodava todos os seus trabalhos. Tipicamente, usava medidas prontas para a caixa, alterando somente o enchimento de espuma e o tecido que revestia o conjunto, de acordo com o trabalho. Mas não era um trabalho típico e precisava de uma caixa maior. Assim, tratou de construir aquilo que julgou apropriado. Quando a confeiteira telefonou, mais tarde, a caixa tinha acabado de ficar pronta. Arrumou sua obra cuidadosamente e fechou a embalagem pelas travas laterais que instalou para evitar acidentes.

Os dois sempre se falavam logo cedo pela manhã. Quando não pessoalmente, por telefone. Era um domingo e ninguém casaria na segunda-feira, então o escultor decidiu esperar que a confeiteira ligasse, pois notou que estava exausta na noite anterior. Por volta das nove horas, ela ligou. Primeiro declarou suas saudades, mas esse foi o batedor de um resmungo de quem se sentia esquecida por não ter sido acordada. Ele concluiu que esse charme meio felino, essa maneira de garantir uma dose constante de atenção e cuidado, não era uma característica dela, mas do gênero como um todo. E disse duas palavras que a fizeram pular da cama qual criança que se dá conta da chegada da manhã de Natal e corre para o pinheiro. Ele lhe havia prometido a primeira visão daquele trabalho quando estivesse pronto, e, ao anunciar que o havia concluído, cumpria sua palavra. Moravam perto e cada um sobre seu atelier, de maneira que não levou mais que dez minutos até que ela estivesse à porta do escultor.

Ao entrar, encontrou sobre a mesa uma caixa adornada com metais dourados e um belo cetim de seda azul. A tampa superior dividia-se para os lados, sendo o direito uma abertura simples e o esquerdo, mais elaborado, com duas articulações. Cada lado tinha uma trava manual e uma fechadura, e ele lhe deu a chave que abria o lado direito. Sempre fazia esse sistema de duas chaves para o caso do noivo querer ver seu trabalho sem correr o risco de contrariar a futura esposa e a tradição de não vê-la vestida de noiva antes da cerimônia. Ela destravou a tranca e levantou a tampa, que expôs um impecável fraque, com colete negro e gravata prata, até que a cabeça tornou-se visível. Era o rosto do escultor. Seu chão, de súbito, estremeceu. Ele tinha feito o próprio boneco, em segredo, e isso significava que pretendia se casar. Quis ver a boneca da noiva, mas ele não lhe deu a chave imediatamente.

“Esse impacto que você demonstrou quando viu o que era para ser um simples boneco feito para adornar um bolo deve ter lhe permitido ver como enxergo a união de um casal. Sem caricaturas, sem coisas prontas, essa é a imagem daquele que casou com a pessoa que inspirou a boneca que estará logo ao lado, e, juntos, formam um símbolo da união ali celebrada. É esse sentimento mútuo do casal que dá sentido a um trabalho como esse. E à cerimônia, não o contrário. A cerimônia sem o sentimento não significa nada. Assim como seus magníficos bolos não passariam de confeitaria sofisticada se não houvesse o sentido de celebração, de partilhar a felicidade do casal.”

Com essas palavras, ouvidas sem que ela emitisse um único som, ele lhe entregou a segunda chave. Ela abriu cuidadosamente a fechadura e a trava, levantando a segunda tampa e expondo uma boneca que parecia trajar apenas uma anágua. Ele explicou que a gaveta sob o nicho da boneca continha vestidos e sapatos de modelos variados, para que a noiva escolhesse, e que isso havia sido feito com a ajuda da senhora que vestia noivas. Havia um véu cobrindo a cabeça, e ela tirou a boneca da caixa para removê-lo com mais cuidado. Foi quando reconheceu seu próprio rosto e compreendeu o que era aquele trabalho. Sem olhar para canto algum, deitou sua miniatura de volta à caixa e fitou o escultor, sorrindo com os olhos. Ele soube, então, que ela seria sua companheira em definitivo, daquele dia em  diante.

 



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