Bonecos de Bolo (Parte II)

23/04/2011 Postado em Contos, Textos

Não deixaram o local da recepção juntos, mas trocaram telefones e, desde aquela noite, falavam-se sempre. Não foi algo rápido, esse período de prospecção mútua. Era visível que tinham afinidades, mas ela tinha essa resistência à filosofia de trabalho do escultor de bonecos de bolo. Sim, claro, ela fazia bolos de casamento. Lindos bolos. Mas, para ela, eram apenas isso. Não enxergava nada de especial na cerimônia que sagrava a união de um casal e achava muito estranho, e até curioso, que ele visse tudo isso de maneira tão diferente.

Já tendo percebido sua opinião cética, exposta implicitamente nas conversas que tiveram ao longo dos dias, ele preferiu não tocar no assunto. Deixava, contudo, que ela o assistisse trabalhando em seus bonecos e chegou a ajudar com um bolo. Àquela altura, já haviam alcançado alguma intimidade e como trabalhassem muito, encontravam-se várias vezes em seus estúdios. Apreciavam mutuamente a companhia do outro enquanto davam vida às suas criações e um ajudou a angariar clientes para o outro. A princípio, ela acreditava que alguns dos noivos para quem vendia bolos não poderiam encomendar os bonecos feitos por ele. Imaginou que custassem muito caro. Mas ele atendeu alguns pedidos por um valor simbólico e chegou a fazer um par recusando-se a cobrar, quando a filha da senhora que criou a confeiteira se casou.

Inevitavelmente, a diferença filosófica que partilhavam deixaria de ser algo fácil de contornar. Sim, partilhavam, porque a discordância era objetiva e direcionada à crença do outro. E não era algo ligado ao matrimônio em si, mas simplesmente à cerimônia. Se para um era apenas algo protocolar que não interferia em nada na vida do casal, para o outro era um divisor de águas que merecia, sim, toda aquela pompa e circunstância. Por isso, disse o escultor, cobrava o que bem entendia quando queria que a pessoa pudesse ter aquela memória preservada, mas não tivesse condição de arcar com o custo de seu trabalho. Ou não cobrava. Não era o dinheiro que importava, mas o que ele podia custear. Assim, a confeiteira foi descobrindo que, apesar de viver muito bem e receber encomendas de pessoas muito abastadas ao redor do país e do mundo, o escultor tinha laços de amizade com padres e cerimonialistas que lhe mantinham informado sobre casais cuja relação era especial e assim deveria ser tratada. Houve até um caso de um senhor que, quarenta anos depois, reencontrou um antigo amor da juventude, a quem pediu em casamento. Recusou seus serviços, achando que tinham sido oferecidos sem custo por ser pessoa de poucas posses. Foi necessário que o escultor fosse à sua cidade para explicar-lhe, pessoalmente, o motivo de recusar-se a receber por seu trabalho, e que ele aceitasse os bonecos como um presente, uma celebração do reencontro. O homem era teimoso, mas por fim entendeu e aceitou a oferta.

A confeiteira tinha uma visão mais simplista, mas não menos real do mesmo objeto. Acreditava que fazia os bolos para pessoas que viviam um momento muito feliz que merecia tamanha celebração. A depender do dia, ela acreditava que a cerimônia era algo desprovido de significado, que o importante era o que havia entre os noivos, ou simplesmente desacreditava de qualquer coisa, porque simplesmente não era algo relevante para ocupar seu tempo. Em qualquer hipótese, dedicava suas energias à massa, à cobertura e à decoração de seu trabalho. Não era como se seu nome fosse referência notória no assunto, porque nunca procurou verdadeiramente se fazer conhecer, mas esse quase anonimato parecia meio falso quando a agenda dela mostrava tantas encomendas que tirar férias era um planejamento a longo prazo. E, se ela não acreditava, tinha ao menos o devido respeito pela crença alheia. A confeiteira era como um fotógrafo ateu aficionado por arte sacra. Ele não partilha da fé de quem esculpiu ou pintou, mas seria tolice negar a beleza e sabia disso.

Algo estava diferente, entretanto.

Do casamento de seu amigo àquele momento, já contavam seis meses. Via o escultor sempre que ambos podiam, mas nenhum dos dois falava na existência de um relacionamento. Parecia um combinado entre eles, como se um temesse a forma como o outro reagiria ao seu entendimento do que é uma relação a dois. Em tempos mais corridos, contentavam-se em ver o outro trabalhar e passar a noite juntos. Nem sempre isso significava dividir um quarto, afinal, faziam parte daquela raça entusiasticamente obcecada pelo trabalho. O tipo extremo, que tem um sofá-cama no local de trabalho. Então, o escultor começou um projeto sigiloso e pediu-lhe que não aparecesse mais sem avisar, para que ele pudesse recebê-la sem qualquer constrangimento, deixando claro que ninguém veria esse trabalho em particular até que estivesse pronto.

A princípio, acreditou que todo esse segredo fosse, finalmente, uma reação à maneira como ela tratava os momentos a dois, um temor que sentia apenas quando alguém havia conquistado relevância indispensável em sua vida. Quando deu conta da ideia que fazia, e do temor, sentiu a espinha gelar, porque aquilo significava a falha em se manter a uma distância segura. Ela não sabia dizer por que aquilo a incomodava, mas era um fato que não podia simplesmente fingir que inexistia e sentia falta dos momentos que aquele trabalho secreto lhe roubava. Sentia ciúmes de um boneco de biscuit, mas isso lhe era tão ridículo que ela se recusava a dar-lhe o nome devido.

O escultor, por sua vez, encontrava-se tão absorto no tal projeto que chegou a recusar uma encomenda polpuda. O cerimonialista que lhe havia feito o pedido chegou a pensar em problemas de saúde, especialmente depois que a noiva ofereceu o dobro do valor inicialmente proposto, para garantir seus bonecos. Preocupado, recebeu uma serena resposta, simplesmente havia um problema de tempo. Atender o pedido daquela cliente significaria abrir mão de tempo para aquele projeto secreto, e não havia uma fibra de seu corpo que concordasse com isso. Tinha de terminar o mais cedo possível, especialmente por conta da complexidade de detalhes. Normalmente, ele os esculpia baseando-se em fotografias, e não era nada tão difícil, com a prática. Desta vez, fazia de memória. E eram tantos os detalhes que não queria nada para atrapalhar.

A confeiteira, sabendo que seu aniversário estava próximo, tratou de procurar a melhor ideia para lhe fazer um bolo de aniversário. Ele usava a lente de aumento sobre a massa, ainda sem pintura, quando ela entrou, esquecendo-se da nova regra de nunca aparecer sem antes telefonar. Ouvindo a porta abrir, ele tentou mostrar que ficara aborrecido, mas era incapaz de fazê-lo. De aborrecer-se com ela, digo. Fingir era algo em que ele era ainda mais incompetente. Simplesmente apagou as luzes da bancada de trabalho e fechou a cortina de lona enquanto ela tirava da caixa uma torta de frutas que tinha criado especialmente para a ocasião. Quis espetar uma vela no bolo, mas o escultor não deixou, era um crime estragar um trabalho tão bonito. Fosse para dar-lhe fim, haveria de ser o fim devido. Em seus estômagos. Rindo, ela não desistiu de lhe fazer cumprir a tradição de partir o bolo. Sentaram, conversaram, comeram. É de se perguntar como foi que conseguiram mastigar se sorriam o tempo todo de uma forma tão exagerada que pareciam querer alcançar as próprias orelhas.

Durante aquela noite, que só não terminou com os dois esparramados no sofá-cama depois de conversar horas sem fio (dizem que essa é a qualidade que melhor identifica a longevidade de um casal) porque ela tinha uma entrega logo cedo e precisava voltar para casa, ele inibiu várias tentativas de descobrir o que havia por detrás da cortina. Já não havia nenhuma desconfiança da parte da confeiteira, estava certa de que era um trabalho e não alguma das coisas que fatalmente toda mulher desconfia quando seu par age em segredo, por qualquer motivo. Mas ainda era grande admiradora do que suas mãos faziam a partir da massa disforme e queria muito saber o que era aquilo. Sem nunca lhe ser rude, o escultor usava um olhar que, aprendera, a desarmava, e pedia paciência. Enfim, com a promessa de que ela seria a primeira pessoa a ver quando a peça estivesse pronta, obteve-lhe alguma paz de espírito.

 



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