Bonecos de Bolo (Parte I)

14/04/2011 Postado em Contos, Textos

Uma noite bonita, se não fosse o temporal. Os convidados, espremidos na igreja, aguardavam ansiosamente a chegada da noiva, protelada contra sua vontade. A equipe da recepção do casamento, enfim, montou um toldo improvisado que lhe permitiu saltar do carro sem ensopar a cauda do vestido, e a cerimônia pôde acontecer. Era uma igreja antiga e sem luxos modernos, que jamais poderia ter por força de sua história, de forma que os presentes tiveram de se contentar com meia dúzia de ventiladores de coluna. Dizem que casar sob chuva é bom augúrio, e aparentemente é verdade. Ninguém teve senão elogios para a cerimônia, nem mesmo a habitual queixa da longa duração do sermão do padre. Da porta para dentro, tudo foi tão perfeito que a noiva parecia ter brilho próprio.

A maior parte dos padrinhos dos noivos era composta de casais. Havia esse par, contudo, que não se conhecia. Tradicionalmente, isso significaria que ele era amigo do noivo e ela, da noiva, mas era precisamente o oposto. E talvez por não se conhecerem foi que tropeçaram um no outro em cada passo da cerimônia em que sua ação era necessária. Ou talvez tenha sido outra coisa. Chegou a ser engraçado que todos os outros casais de padrinhos e os pais dos noivos tenham decidido juntar-se a eles na pista de dança para valsar, porque eles não eram um casal, sabiam pouco mais do outro que o prenome e o que puderam observar, e sem muito interesse, o que fez daquela dança algo como andar com os sapatos trocados. O mais estranho e engraçado, na verdade, eles não tinham se dado conta. Ninguém além deles havia notado tanta estranheza. Era como se tudo estivesse acontecendo da exata forma como se esperava.

Depois dos dez minutos mais longos de suas vidas, sentaram-se nos lugares marcados para que o jantar fosse servido. Diante de tudo o que foi visto até aqui, acredito que o óbvio seria se eles fossem colocados na mesma mesa, lado a lado. Bom, não aconteceu nada disso. Com lugares marcados em mesas não apenas distantes, mas com cadeiras em posições opostas, eles não teriam de se ver durante o jantar, e juraram para si próprios que estavam aliviados com aquela novidade. Por cinco minutos. Tão discretamente quanto possível, começaram a ensaiar meneios de pescoço, cada vez mais evidentes e achando-se cada vez mais próximos do treinamento de vigilância de um agente secreto, na tentativa de observar o outro, o que comia, o que fazia, com quem conversava. Até um momento, lá pela sobremesa, em que a coisa ficou tão flagrante que o noivo providenciou uma discreta reorganização de lugares, permitindo que os dois dividissem a mesa. Discreta apenas para eles, porque, em um raio de quatro mesas de doze lugares, rigorosamente todos os convidados tinham conhecimento de seus olhares longos. Menos, claro, os dois.

Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, mas nada foi dito sobre uma expressão ocupar dois corpos no mesmo lugar. Um sorriso amarelo, aflito, de quem foi descoberto no decorrer de uma travessura podia ser visto nos dois. Deixados com a impressão de que ninguém prestava mais atenção neles, tentaram algumas vezes uma tímida conversa, até que, falando daquilo que tinham em comum – os noivos – conseguiram trocar mais de cinco frases sem interrupção. Eram observados curiosamente por alguns convidados, dividindo involuntariamente com seus amigos recém-casados a atenção que lhes deveria pertencer exclusivamente naquela noite. Não contarei sobre essa conversa em pormenores, ela é totalmente desimportante. A que se iniciou a seguir, sim, foi o começo de algo.

Acontece que ela era uma jovem e bonita chef de cozinha que, diante da pouca demanda na cidade para profissionais do seu tipo, resolveu diversificar e abriu uma pequena confeitaria que trabalhava exclusivamente sob encomenda. Assim, fornecia para diversas doçarias e para bufês de casamento, sendo que, para estes, fazia apenas o bolo. Seu nome não era exatamente conhecido fora do ramo, mas isso não era sinal de malsucesso, e sim de um mercado que funciona exclusivamente por meio de indicação pessoal. E aí, sim, era bastante conhecida e requisitada. Era dela, inclusive, o bolo que seria partido dali a instantes por seu amigo de longa data e sua nova e por ela muito querida esposa. Mas já estava cansada de falar apenas de si e queria saber do padrinho que fora seu par, quem era, o que fazia e como conheceu a noiva.

Rindo de vê-la reconhecendo a própria verborragia, possivelmente induzida pelo vinho, ele demonstrou uma alegre surpresa pela autoria do bolo, dizendo que tinha um segredo para contar sobre isso, mas que não falaria naquele instante. Não existia nenhum segredo, mas ele sabia que mulheres têm um tique para coisas que não podem ser ditas e quis ver até onde ela aguentaria antes de demandar saber do que se tratava. Contou sobre sua amizade com a noiva, de como isso vinha de longe, muito longe, e dos ombros e abraços que partilharam ao longo do caminho, sem, claro, entrar em detalhes para evitar tocar em algum ponto que não quisesse mencionar ou simplesmente para não ser óbvio tão cedo. Sim, estava interessado em ser interessante. Ela era bonita e inteligente, qualidades encantadoras. Mas não era muito boa em disfarçar a curiosidade. Com cinco minutos já estava com sua gravata nas mãos, exigindo a verdade sobre o tal segredo.

Contou-lhe. Os bonecos sobre o bolo eram presente seu ao casal. Imediatamente, ela lembrou de ter recebido a peça, de fino biscuit, em uma caixa de madeira com revestimento interno de espuma e ter passado bastante tempo admirando como aqueles pequenos seres inanimados retratavam fielmente o casal. Quis saber onde ele os havia comprado, e foi quando ele lhe disse que a parte do presente não era o segredo. Era o fato de ter sido ele próprio o escultor dos bonecos. Sem ter imaginado até então que as mãos que lhe conduziram com firmeza na valsa manipulavam instrumentos de entalhe capazes de dar tão bela forma à massa, ficou deveras surpresa e reconheceu que era um segredo muito bom de se guardar. E, então, ele lhe contou que, naquela época, já trabalhava exclusivamente esculpindo bonecos de bolo para todos os cantos do planeta, e que ganhava muito bem pelo seu trabalho, porque era algo único.

Diferente dos bonecos normalmente formais e genéricos ou personalizados mas ligeiramente caricatos e de massa fria que são oferecidos aos casais, seu trabalho se prestava a dar uma memória duradoura, que não amarelaria, como as fotos, do momento em que foi celebrada a união de seus clientes. Feitos com base em jogos de fotografias que permitiam um perfil tridimensional dos noivos e retratando-os da maneira como estariam vestidos no momento da celebração, os bonecos eram, invariavelmente esculpidos e pintados à mão, e, por força da tradição, não poderiam ser vistos juntos até o grande dia. Afinal, se o noivo ver a noiva em seu vestido antes da hora era mau augúrio, porque seria diferente com sua miniatura?

 



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