Trincheiras domésticas

31/03/2011 Postado em Textos

Era um caloteiro de princípios. Jamais iria a um lugar onde seu dinheiro fizesse falta. Sabia que um funcionário que por ele tenha sido enganado não poderia ser realmente prejudicado, então não tinha pudores de atacar um estabelecimento cujo proprietário guiasse um carro mais caro que seu apartamento. Apartamento esse que lhe rendia uma diversão garantida todas as manhãs. Depois de um rápido café com pão e manteiga, ele tentava adivinhar o que o síndico tinha adivinhado que ele ia fazer para escapar sem o encontrar e fazia o exato oposto. Era infalível, e os meses sem pagar condomínio eram a prova. O regimento permitiria ao síndico votar em assembleia, como punição pelo débito, a perda temporária do domínio sobre sua garagem. Como ele não dirigia, isso não valeria de nada. Havia, com seu nome escrito, uma gastrite no estômago daquele pobre gestor. Prestes a ser promovida a úlcera.

Ele sabia que o seu edifício não exatamente passava bem sem a taxa mensal, mas era uma questão pessoal. A última síndica – que Deus a tenha – era sua vizinha de porta. A única vizinha no andar. E, dizem, quanto menos pessoas vivem no mesmo piso, mais intensos são os sentimentos que nutrem mutuamente. Para o bem e para o mal. Havia um rumor a dizer que ele fora a causa da morte daquela senhora, mas isso não era verdade. Ela não era a pessoa mais benquista daquele lugar, e ele, com toda a admiração arrebanhada nos anos de briga com a velha senhora, na falta de uma causa conhecida além da monótona parada cardíaca, foi alçado à qualidade de castigo a quem tirava a paz dos moradores do condomínio inteiro. E, olha, eram quatro edifícios de vinte e dois andares. Verdade, a velhinha era osso duro.

Falando em osso duro, foi como a briga começou. Acontece que a velhinha tinha um cachorro e era louca por ele. Nosso herói, por outro lado, nunca foi muito fã do bicho. Não de cães, mas daquele em particular. Era um poodle neurastênico e fanático por carneiro, por mais que um poodle gostar de comer carneiro possa soar um tanto canibalesco, em um distante grau de parentesco. Enfim. Criado solto e sem coleira, ele sempre dava uma volta na área de serviço do andar e, um belo dia, sentiu cheiro de sua tão cara carne ovina na lixeira. Ninguém poderia duvidar que isso terminaria em sacos rasgados e lixo espalhado. Foi mais que encontrar a soleira de sua porta imunda. Mais que descobrir isso depois que uma barata veio lhe visitar sem convite. O pior, mesmo, foi ter que ouvir aquela voz estridente buzinar-lhe os ouvidos por dez minutos, responsabilizando-o pela sujeira. Foi o cachorro gatuno quem violou o cesto e os sacos, mas a culpa era dele, que não usou sacos à prova de animais. Ali, naquela noite, foi declarada a guerra.

Como morava só, sozinho tudo limpou. Não o lixo. Esse, o zelador recolheu antes que tivesse chance de ser proibido de fazê-lo. Ele, também, figurava entre os desafetos da velha síndica. Mas o mau cheiro custou alguns baldes de detergente, água sanitária e até creolina, ao longo de duas semanas, para desaparecer. A cada esfregada com a vassoura, as palavras ribombavam em sua mente e faziam crescer o sentimento de que aquilo não podia terminar ali. Voltando para casa depois do trabalho, ele viu o açougue desprezar um pernil de carneiro. Curioso, perguntou e soube que o frigorífico do lugar havia quebrado e o dia fora anormalmente quente, sendo aquele pernil apenas um dos prejuízos. Tinha boa aparência, mas não podia ser vendido, por ser considerado impróprio para consumo humano. Ele, então, teve uma ideia brilhante. Vingar-se-ia do autor e da mandante.

Pagou uma ninharia a título de consolo moral ao açougueiro, que ficou feliz em não ter um prejuízo completo, passou na farmácia e subiu direto para casa, pela porta dos fundos. Abriu a embalagem do pernil sobre a bancada da pia e talhou a carne ao comprido, para rechear com uma pasta de hortelã, alho, salsa e cebola. Abriu o pacote da farmácia e retirou um vidro de comprimidos de 46. Despejou frasco inteiro numa tigela e moeu até obter um pó branco como talco, que misturou ao recheio, estufando o pernil, que seria assado logo pela manhã.

Sabia que o poodle das profundas saía sozinho todas as manhãs, por volta das nove, para seu passeio na área de serviço do andar, que coincidia com os dez minutos apocalípticos de latidos indignados para o zelador, enquanto este recolhia o lixo de seu andar, do acima e do abaixo. Esperou os latidos terminarem, abriu a porta e colocou uma bandeja de alumínio descartável com o pernil apetitosamente arrumado com batatas ao lado do cesto de lixo. Fartou-se o cachorro por mais de meia hora, entrando em casa para uma digestão que seria mais rápida do que ele, se raciocinasse, seria capaz de imaginar. Logo depois de ver a porta se fechar, abriu a sua, pegou a bandeja e tratou de descer com ela, pessoalmente, ao depósito de lixo do condomínio, para eliminar qualquer possível evidência. Demorou de subir, porque houve uma falha elétrica na subestação e o condomínio não possuía gerador, e, mais tarde, descobriu que essa ocorrência não planejada foi essencial para o sucesso de sua empreitada.

O mesmo tempo que o poodle levou para comer o pernil. Foi quanto levou o 46 para mostrar porque está no mercado há algumas gerações. A síndica levantou-se da sala, onde se reunia com as amigas para o clube de tricô, e foi à cozinha buscar uma jarra de suco. Mais se aproximava, mais sentia um cheiro inconfundível e muito incômodo. Seu querido cãozinho tinha, às vezes, uns episódios de gases bastante desagradáveis, e ela já franzia o nariz, prevendo encontrar uma cozinha empesteada com o mau cheiro. O que encontrou, entretanto, tornou sua expectativa um eufemismo muito elegante. Quase tendo vomitado as tripas pelo lado errado, o cão estava coberto por uma lama marrom, que cuidou de espalhar por toda a extensão da cozinha até o tanque de lavar roupa, em uma genuína expressão de desespero. Não tinha coragem nem de ganir, o pobre. Da sala, o que se ouviu foi um berro, um vidro se partindo e um baque seco, em sequência quase teatral.

Daí adiante, tudo é história, contada e aumentada pelos moradores do lugar. Pega completamente de surpresa e tendo levado dois meses para se recuperar daquela cena, a síndica tentou seguir com a guerra privada contra seu vizinho de porta, especialmente depois que este resolveu não mais pagar o condomínio. Não o venceu, nem foi por ele vencida, já que a vida tomou outros rumos e achou melhor abreviar aquela história com um armistício forçado, levando-a deste mundo com um infarto fulminante enquanto dormia. O cão foi viver com a irmã da finada dona e nunca mais ninguém soube dele ali. O condomínio viu-se às voltas com uma sucessão malquista por todos, ficando o cargo de síndico vago por meses, até que alguém aceitou assumir o fardo. Na verdade, ofereceu-se para assumi-lo. Tendo herdado o apartamento da velha síndica, seu filho achou que seria justo tentar pôr ordem na casa. O que mais herdou, bem sabemos.

 



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