Reforma

17/03/2011 Postado em Textos

Instalei um novo corretor ortográfico em meu computador, para me adequar às novas regras trazidas pelo acordo gramatical. Devo confessar que estou desapontado, embora ainda falte determinar se comigo ou com a nova ortografia. Basicamente, ou perdi a capacidade de discernir, ou essa ortografia não seria aprovada nem num vestibular da década passada. Essa idéia, digo, ideia reformista foi meio impensada. Diferente da última, quando algumas coisas realmente melhoraram, esta não fez nada de realmente útil e ainda deu fim no trema. Definitivamente, uma inconseqüência. Er, inconsequência.

As autoridades responsáveis pelo acordo no Brasil justificaram sua existência usando o argumento da uniformização do idioma. Resta saber se alguém acordou para o fato de que ninguém verificou se esse desacerto está sendo observado nos outros países lusófonos, de fato. E se alguém realmente se ilude ao ponto de considerar o nosso português idêntico ao lusitano ou ao de Cabo Verde, porque eu adoraria ouvir a explicação de aqui se conjugar gerúndio e em Portugal ele ser apenas uma peça de museu, substituída pelo infinitivo.

A mudança na acentuação e na grafia de algumas palavras é incômoda para quem já sedimentou o idioma, mas esse é um problema menor. Existe algo que em Direito se chama de letra morta, é uma lei que “não pegou”. A reforma ortográfica é letra morta porque veio pra substituir outro defunto. Para quem duvida eu lanço um desafio: rode sua cidade atrás de publicidade privada e oficial e registre todos os impressos que estejam com crases e vírgulas nos seus devidos lugares. Não, muito difícil. Só as crases. Se a margem de erro for inferior a 20%, eu me retrato. Mas aviso: essa é difícil de ganhar, mesmo sem as vírgulas. Eu tenho uma fotografia, tirada por mim, de uma placa do Governo Federal, daquelas amarelas e verdes, com os dizeres “INCENTIVOS FISCAL” (sic) pra usar como minha carta na manga, em todo caso.

No meu tempo de escola, os últimos dois anos de colegial eram dedicados quase que inteiramente à literatura nas aulas de português, já tendo sido exaurida a estrutura do idioma. Hoje, as faculdades estão incluindo língua portuguesa como matéria obrigatória. E ao invés de sancionar uma lei que imponha multa a quem publique texto com erros ortográficos, nosso Executivo federal permite placas como a que mencionei há pouco e parece ser dotado de um autismo quasicomatoso para não interpretar como sinal de alarme uma faculdade ter de ensinar o vernáculo a um universitário.

Jo Soares (sem acento, segundo ele próprio, e, portanto, inatingido pela reforma) escreveu um texto leve sobre as novas regras e usou o exemplo da linguiça para esconder um esporão de arraia sob a capa humorística de suas palavras. Isso foi logo quando a norma virou notícia. No fim do próximo ano cairá a norma antiga. Eu pensei em tratar do assunto humor, mas, francamente, não acho que seja necessário. Humor não é escrachar uma decisão desacertada dessas. Humor é ver um palhaço analfabeto funcional ser o deputado mais votado no estado com o maior PIB do país e, em seguida, vê-lo membro da comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Humor é saber que vários trens do metrô soteropolitano apodrecem nas docas enquanto uma pífia linha de oito quilômetros completa 12 anos de obras inconclusas. Humor distorcido, verdade. Mas só pode ser piada. Tem que ser. Se alguém provar que isso tudo é brincadeira, eu paro de reclamar de não poder usar trema e talvez até do povo que acha que todo artigo feminino leva crase.

 



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