Perenidade

24/03/2011 Postado em Textos

Aos 79 anos, morreu Elizabeth Taylor. E viu-se uma comoção generalizada pela perda de uma única pessoa, muitas vezes desconhecida além de seu trabalho pela maior parte do público. Desde muito novo, poucas vezes testemunhei esse tipo de evento. Personalidades, em suas áreas mais variadas, selando com chave de ouro sua presença na memória coletiva. Deixando uma sensação de vazio que pode nunca desaparecer, uma cicatriz na história contemporânea.

Liz Taylor, se ela permitiria tanta intimidade a um desconhecido, e a falta que ela fará nas artes cênicas, não é propriamente o ponto que quero atingir, entretanto. É a sensação, durante toda a vida e a carreira dessas pessoas, de que eles são intangíveis, de uma semideidade cativante, algumas vezes reforçada pelo alcance de suas obras, permeando gerações seguidas de admiradores. Existem aqueles cujo trabalho admiramos e que nos atrevemos a pedir uma foto ou um autógrafo quando encontramos. E existem esses, como madame Taylor ou Sinatra, que, francamente, não sei se teria a audácia de incomodar acaso os encontrasse no meio da rua ou num restaurante. Não que me faltasse motivação, mas… soa um tanto sacrílego incomodar. Simplesmente estar no mesmo ambiente que eles, às vezes, já é mais que suficiente.

Quando há esse sentimento por uma pessoa, de tamanho respeito, pouco importando se é uma personalidade ou é o seu avô, creio que há uma fusão do ser com aquilo que ele construiu. Admiro imensamente meu professor de literatura do colegial, por quem ele é, o imenso domínio que tem pelo que ensina, e a humildade de falar com cada aluno como se filho seu fosse. Pode ser que, um dia, eu já não seja capaz de lembrar de seu rosto ou até de seu nome, mas estou certo de que a marca do que foi conviver com ele não vai abandonar minha personalidade, porque é parte integrante dela.

Arriscando chafurdar nos clichês, é seguro dizer que os únicos que sentirão falta de tais pessoas são aqueles mais íntimos, com real convivência. Para o resto de nós, fica um vazio, mas que é muito mais a certeza de não ser brindado com mais nada novo daquela pessoa que de tê-la perdido, porque, tendo fundido sua personalidade com sua obra, tornou-se imperecível. Nós ainda escutamos Jim Morrison, Fredie Mercury, Nina Simone, Cartola, Nat King Cole, Piaf, assistimos Chaplin, e a lista cresce sem parar. E cresceu mais um tanto ontem, porque, clichê ou não, Elizabeth Taylor sagrou-se, de fato, imortal.



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