Aquarela

03/03/2011 Postado em Textos

Bonita. Assim se sente quando termina de vestir seu rosto com nuances diversas, que variam conforme seu humor. Suas feições outrora de uma inocência juvenil são realçadas pelo cereja do batom e a sombra, sempre leve e elegante, nos olhos.

Pergunta-se, de novo. Por onde andará, como estará hoje, aquela sua velha conhecida dos tempos que já se foram? Especula, mas sabe que não adianta procurar, ela se foi com as areias do tempo. Ou acha que sabe. Mas não se indaga da diferença entre achar e saber.


A elegância em saber vestir o corpo é tão importante quanto saber vestir o rosto, e ela domina ambas artes muito bem. Sabe o que lhe cai bem e cai dentro de um belo vestido, de estampa sóbria, sim, mas sem parecer uma carpideira de velório.

Naqueles tempos, quando conviviam, a moda era outra. O diga sua linda saia rodada branca com bolas amarelas. Um tempo onde um tamanco de cor quente pedia uma pista de dança e um twist. Mas isso foi quando chapéu era moda, não para esconder raízes que teimam na cor branca dos anos.

Enfrenta o sol do fim da manhã, precisa comprar coisas pro jantar. Aniversário de casamento. Não sabe dirigir, mas, senhora de respeito, jamais senta no banco da frente do taxi. Conjectura sobre o que cozinhar, o vencedor termina sendo o bife enrolado, recheado com provolone. Detesta. Mas seu marido adora.

Quantos anos terá aquela moça, hoje? Seu aniversário foi há poucos dias, mas não consegue lembrar quantos anos faria. Recrimina-se por lembrar tanto de alguém que já nem mesmo faz parte de sua vida, e por fazê-lo em tão curto período, com tanta coisa para aviar. Ainda precisa voltar para casa a tempo de assar a carne. E receber o telefonema lamurioso de sua amiga mais próxima.

Ao crepúsculo, recebe seu marido com um sorriso no rosto lindamente decorado. Sentam à mesa. Ele elogia o vinho e o cheiro da comida, enquanto ignora que ela veste o vestido que ganhou dele pela manhã. Ela finge que gosta da carne e sorri, mais por ele que por ela própria.

Ouvem um pouco de Noel Rosa e vão dormir. Estão já cansados para dançar, como há dez anos, ao som de Pixinguinha. Foi como se conheceram, em um baile, ao som de um saxofone encantador. Outros tempos. O vestido branco e rosa deu lugar a outro, só branco. A jaqueta de couro à James Dean foi substituída por um inócuo terno preto. De abraçados, dormem de camisolão e pijamas.

Já deitada, lembrou-se. Esqueceu de lavar o rosto. Foi ao banheiro demaquilar-se. Sonolenta, mas com o mesmo critério com o qual veste o rosto todos os dias. Mais uma vez lembrou-se de sua velha conhecida. Ensaboando as bochechas, desdenhou de sua memória e levou o rosto à pia. Deitando a toalha no suporte, quis assustar-se, mas faltou-lhe o fôlego. Diante de si, perplexa, lhe fitava a versão madura daquela jovem que, há muito, desaparecera de sua vida.

Arquivo pessoal de 2007



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