A hora dourada

10/03/2011 Postado em Textos

O som tenro do roçar de pelos no algodão subitamente lhe vem à mente. Ela aperta o retrato contra o peito, num instinto protetor enquanto sua mente revive memórias a uma velocidade tal que a sensação é a mesma de uma volta na xícara do parque de diversões. Sente-se impotente e desamparada ao mesmo tempo, mas não são sentimentos afins, senão opostos. E, contudo, andam juntos, a medir qual dos dois é capaz da maior devastação dentre suas entranhas. Sabendo que nada podia fazer, obriga-se a empurrar de volta o soluço. Era sua vez de confortar, ainda que simbolicamente, pela fotografia. Mas, por dentro, ela chora baixinho, desejando acordar, agarrar com força aquele pescoço e ouvir sua voz a lhe dizer que tudo está bem, enquanto a barba roça ternamente na gola do pijama.

Ela não gosta de barba. Pessoas que se dedicam a explicar o comportamento alheio como uma ciência semi-exata diriam que o normal seria ela preferir barbudos, mas não. Sempre bem aparados, aqueles fios não eram uma moldura, mas parte do rosto que ela simplesmente não consegue imaginar de outra forma. De onde está, não o pode ver. Concentra-se em momentos que viveram juntos, como quando amanheceram o dia de Natal montando a bicicleta que ela pedira, aos pés da árvore. Ou o dia em que ela inadvertidamente deixou claro que não era mais uma menina pequena, trazendo a ele uma sensação muito parecida com a de uma criança que descobre a verdade sobre Papai Noel. Ela, de uma só vez, contou de seu primeiro beijo, sobre estar apaixonada e pediu que ele conhecesse o garoto em seu aniversário de quinze anos, apenas duas semanas distante. E, como adivinhasse a insuficiência de tempo para que ele se preparasse para a ocasião, arrancou-lhe a promessa de não afugentar o rapaz.

O caminho do centro cirúrgico até a unidade de terapia intensiva não passava nem remotamente perto de onde ela estava e não era permitido a nenhum visitante ir adiante dali sem autorização. Mas um dos médicos abriu a porta e ela não sabia quem ele era, mas sabia que era médico e, mesmo com a sala de espera cheia, sabia que as notícias eram de seu interesse. O controle de acesso à UTI é rigoroso, mas ela conseguiu entrar. É curioso como duas pessoas falam palavras semelhantes, mas uma nada consegue, porque está nervosa, e a outra, aparentando serenidade, simplesmente olha nos olhos dos atendentes e, em instantes, é conduzida aonde quer chegar. A forma contrita como fala, a fotografia que não deixa sua mão, a serenidade de quem não teme perder alguém, mas, invés disso, teme o sofrimento desse alguém, ela tinha simplesmente aceitado a situação, tinha acordado. Tudo o que deseja é que ele fique bem, sem se preocupar em como.

A profusão de sons e luzes e fios ligando máquinas a corpos chega a parecer mais um efeito especial para acrescentar drama à cena que algo real. Um tubo azul sai do mesmo lugar de onde vinha a voz grave que lhe desejou felicidade quando a entregou ao pé do altar e a consolou quando a felicidade lhe faltou, anos mais tarde. De súbito, prende o riso ao lembrar que ele teria preferido um tubo verde ou talvez branco. Queria que ele estivesse acordado para saber que piada surgiria dos picos que continuamente apareciam no monitor pendurado na parede. E que se éter cheirasse a maconha, Bob Marley provavelmente estaria com eles naquela sala. A cicatriz na perna denuncia o perfeccionismo quase obsessivo do cirurgião e, de uma maneira estranha, isso a tranquiliza. Momentos antes, conversou com ele e soube que tudo correra bem, foram necessárias duas pontes e que o dano ao músculo não foi grave. Ainda haveria, então, espaço para ela ali dentro. E, finalmente, sentiu-se capaz de oferecer aquilo que recebeu por toda uma vida. Segurou-lhe a mão esquerda, que estava livre dos tubos de soro e medicamentos. Sentiu os dedos fechando ao redor de sua palma e soube que ele sabia que ela estava ali. E soube que tudo ficaria bem.

 

 

O som tenro do roçar de pelos no algodão subitamente lhe vem à mente. Ela aperta o retrato contra o peito, num instinto protetor enquanto sua mente revive memórias a uma velocidade tal que a sensação é a mesma de uma volta na xícara do parque de diversões. Sente-se impotente e desamparada ao mesmo tempo, mas não são sentimentos afins, senão opostos. E, contudo, andam juntos, a medir qual dos dois é capaz da maior devastação dentre suas entranhas. Sabendo que nada podia fazer, obriga-se a empurrar de volta o soluço. Era sua vez de confortar, ainda que simbolicamente, pela fotografia. Mas, por dentro, ela chora baixinho, desejando acordar, agarrar com força aquele pescoço e ouvir sua voz a lhe dizer que tudo está bem, enquanto a barba roça ternamente na gola do pijama.

Ela não gosta de barba. Pessoas que se dedicam a explicar o comportamento alheio como uma ciência semi-exata diriam que o normal seria ela preferir barbudos, mas não. Sempre bem aparados, aqueles fios não eram uma moldura, mas parte do rosto que ela simplesmente não consegue imaginar de outra forma. De onde está, não o pode ver. Concentra-se em momentos que viveram juntos, como quando amanheceram o dia de Natal montando a bicicleta que ela pedira, aos pés da árvore. Ou o dia em que ela inadvertidamente deixou claro que não era mais uma menina pequena, trazendo a ele uma sensação muito parecida com a de uma criança que descobre a verdade sobre Papai Noel. Ela, de uma só vez, contou de seu primeiro beijo, sobre estar apaixonada e pediu que ele conhecesse o garoto em seu aniversário de quinze anos, apenas duas semanas distante. E, como adivinhasse a insuficiência de tempo para que ele se preparasse para a ocasião, arrancou-lhe a promessa de não afugentar o rapaz.

O caminho do centro cirúrgico até a unidade de terapia intensiva não passava nem remotamente perto de onde ela estava e não era permitido a nenhum visitante ir adiante dali sem autorização. Mas um dos médicos abriu a porta e ela não sabia quem ele era, mas sabia que era médico e, mesmo com a sala de espera cheia, sabia que as notícias eram de seu interesse. O controle de acesso à UTI é rigoroso, mas ela conseguiu entrar. É curioso como duas pessoas falam palavras semelhantes, mas uma nada consegue, porque está nervosa, e a outra, aparentando serenidade, simplesmente olha nos olhos dos atendentes e, em instantes, é conduzida aonde quer chegar. A forma contrita como fala, a fotografia que não deixa sua mão, a serenidade de quem não teme perder alguém, mas, invés disso, teme o sofrimento desse alguém, ela tinha simplesmente aceitado a situação, tinha acordado. Tudo o que deseja é que ele fique bem, sem se preocupar em como.

A profusão de sons e luzes e fios ligando máquinas a corpos chega a parecer mais um efeito especial para acrescentar drama à cena que algo real. Um tubo azul sai do mesmo lugar de onde vinha a voz grave que lhe desejou felicidade quando a entregou ao pé do altar e a consolou quando a felicidade lhe faltou, anos mais tarde. De súbito, prende o riso ao lembrar que ele teria preferido um tubo verde ou talvez branco. Queria que ele estivesse acordado para saber que piada surgiria dos picos que continuamente apareciam no monitor pendurado na parede. E que se éter cheirasse a maconha, Bob Marley provavelmente estaria com eles naquela sala. A cicatriz na perna denuncia o perfeccionismo quase obsessivo do cirurgião e, de uma maneira estranha, isso a tranquiliza. Momentos antes, conversou com ele e soube que tudo correra bem, foram necessárias duas pontes e que o dano ao músculo não foi grave. Ainda haveria, então, espaço para ela ali dentro. E, finalmente, sentiu-se capaz de oferecer aquilo que recebeu por toda uma vida. Segurou-lhe a mão esquerda, que estava livre dos tubos de soro e medicamentos. Sentiu os dedos fechando ao redor de sua palma e soube que ele sabia que ela estava ali. E soube que tudo ficaria bem.



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