Sardinhas aladas

24/02/2011 Postado em Textos

A classe econômica morreu. Longa vida à classe espremônica. A idéia de reduzir custos para aumentar a competitividade começou com a saída de uma azeitona de cada refeição servida por alguma companhia aérea desse mundo afora e, hoje, a azeitona restante estampa um cartaz de desaparecida no cardápio das empresas que fornecem refeições aéreas. Nem o café, que era solúvel e levava a maior parte do vôo num bule requentado, existe mais, é fato. Café da manhã, em certos vôos, agora, consiste de refrigerantes e uma coisa qualquer cuja embalagem diz “biscoito com recheio sabor chocolate.” Se quiser, tem água, mas é a única outra opção.

Há quinze anos, talvez ainda um pouco menos, companhia aérea era uma empresa de aviação civil, normalmente com funcionários distribuindo sorrisos e mimos para seus clientes tão especiais. Hoje, são empresas, simplesmente. Companhia aérea é o que essas empresas nos forçam a partilhar com outras pessoas, todos (mal) acomodados em assentos pouco maiores que cadeiras de jardim de infância, por falta de espaço e excesso de ganância. Mas tudo em prol da socialização dos seus ainda muito amados clientes. Na última viagem, por exemplo, os joelhos da pessoa atrás de mim fizeram amizade com minhas costas e até trocaram e-mails.

Se alguém que conheceu o tempo em que voar era apenas um sonho para a maior parte da população resolvesse contar para um adolescente de hoje que, na classe econômica de um vôo doméstico, comeu filé ao molho madeira para o jantar e recebeu uma manta de lã e um travesseiro para ficar mais confortável, provavelmente seria chamado de louco. Melhor nem pensar na reação se considerar que, além disso tudo, havia espaço para as pernas e, principalmente, para o resto do corpo.

O fato é que voar, para a maioria de nós, de sonho, tornou-se realidade. Não a realidade sonhada, a que as pessoas já conheciam antes, mesmo. Um pesadelo em que os aeroportos são caóticos como as rodoviárias, as pessoas se espremem em assentos minúsculos e até já sentimos falta das barrinhas de cereais e pacotinhos de amendoim que algumas companhias ditas de baixo custo tinham resolvido praticar.

Convenhamos que não há gasolina de aviação nem encargos que justifiquem o preço da passagem diante de tamanho desconforto a bordo, aliado a uma atitude de baratear que começa pelos trajes dos funcionários e termina na oferta de algo para desjejum que faz uma pastilha desinfetante para sanitário parecer apetitosa. Pensando como alguém que quer fazer boa figura aos acionistas, eu cortaria até a revista de bordo, que nem é lá grandes coisas na maior parte das empresas, mas não cometeria o despautério ainda maior de, tendo apenas tal iguaria para ofertar ao cliente, anunciar que, em breve, colocará à disposição cardápio contendo itens como café, capuccino e outras coisas, para… venda. Dentro em pouco, vão terminar achando uma boa idéia terceirizar esse serviço e teremos a figura do baleiro aéreo. Com tamanha semelhança com o transporte rodoviário, não falta muito para isso, mesmo. Já há uma companhia falando em transportar passageiros em bancos que os ponham quase de pé, de uma maneira que faz parecer aquele assento retrátil dos comissários de bordo um luxo que será inalcançável ao viajante médio em coisa de dez anos, talvez menos. Hoje, uma empresa serve um reles queijo quente aos passageiros e trata isso como algo muito luxuoso. Do jeito que o preço do metro quadrado a bordo anda subindo, vai saber onde isso termina. Tenho a triste impressão de que a lata de sardinhas que nos transporta hoje, com todo o seu aperto e supressão de itens de conforto, apenas para poderem ser oferecidos para venda à parte, será lembrada com saudosismo.



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