Penitência

03/02/2011 Postado em Textos

Todos, literalmente todos os pais que conheci até hoje ensinaram a seus filhos que não se deve falar com estranhos. Nem todos os filhos seguem esse ensinamento, alguns por rebeldia e outros por inocência. Deve haver uma terceira ou quarta categoria de desobedientes, mas nenhuma delas é importante. Porque todos os filhos deveriam seguir esse conselho. Ignore a parte de olhar para os dois lados da rua antes de atravessar, se você gosta de viver perigosamente. Mas, acredite, falar com estranhos pode ser uma imensa roubada. Do tipo que faz ateu rezar.

É óbvio que há boas coisas na vida que vêm do contato com pessoas com quem você, até então, nunca teve contato. Boas amizades podem nascer assim, completamente ao acaso. Um relacionamento de vinte anos pode começar com uma caneta caindo no chão. E uma tarde desperdiçada pode começar com um “eu sei que não é da minha conta.”

Quem já foi ingênuo ou samaritano o bastante para morder essa isca sabe bem o que é você não conseguir escutar nem o som de sua respiração, por um período de tempo cronologicamente longo mas relativamente eterno. Einstein definiu a relatividade exemplificando com o comparativo entre fazer algo prazeroso e algo extremamente desagradável. O chato disso é que, às vezes, os exemplos teóricos dão uma de alma penada no dia de Todos os Santos e vêm nos assombrar sob a forma de uma pessoa completamente sem noção que lhe aborda com uma frase inocente e lhe deixa curioso sobre qual tamanho teriam as suas glândulas salivares, porque não é possível que alguém consiga falar tanto tempo sem parar e não ficar com a boca seca. A menos, claro, que essa pessoa se chame Fidel Castro.

De súbito, você conhece detalhes sobre a vida de um estranho cujo nome só lhe é conhecido por conta de uma citação de um diálogo com seu pai (o dele, não o seu), com fatos remontando a antes do nascimento de seus pais (os seus, não os dele). É quando sua vida corre diante dos seus olhos enquanto você busca quando foi que você pode, inadvertidamente, ter maculado algum objeto sagrado, se aquele paninho que veio de presente da Itália e é ótimo para coar café não envolveu o corpo de algum santo e por isso a fúria divina se abate agora sobre sua cabeça, qualquer coisa que responda ao fatídico “porque eu, Senhor?” que badala em seus miolos como um sino puxado por um coroinha travesso.

Eis que surge uma brecha e você resolve sair. Polidamente, como manda a boa educação, você conta a maior mentira de sua vida (Foi um prazer) e diz que precisa ir. E se despede dele mais três vezes antes de conseguir sair de lá. Lógico, quando ele pára pra pegar fôlego, ou não lhe escutaria. Stanislaw Ponte Preta vem à mente, por ter narrado tão magistralmente esse tipo de armadilha sádica do acaso, e você percebe que existem quatro estágios de sentimentos neste tipo de situação. O primeiro, a frustração de ter sido fisgado por algo que não vai ser rápido nem bom. O segundo, a resignação, quando você até tenta fazer outra coisa para ver se a pessoa percebe que você, de repente, quem sabe, prefere fazer outra coisa além de ouvir quantos remédios ela toma por dia. O terceiro, um alívio comparável à remoção de um espinho de cacto que estava sob a unha do polegar, quando você consegue se despedir pela última vez, e vê que, dessa vez, funcionou. O quarto… a felicidade que há nas pequenas coisas, como uma caneca de café num dia frio ou conseguir chegar a uma distância segura de um chato.



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