Paixões

17/02/2011 Postado em Textos

Eis o cenário: uma pessoa que detesta ambientes barulhentos e aglomerados vai, voluntariamente, ao Festival de Verão, no dia em que se apresentaria o Chiclete com Banana e mais duas outras bandas que enchem a platéia sem esforço. Com o detalhe de que essa pessoa não gosta dessas bandas. Nem um pouco. E, no entanto, já na véspera, estava ansioso para chegar lá e assistir às apresentações. Não, não faz sentido nenhum. A única coisa que explica esse comportamento é precedida de uma e sucedida por três outras coisas que lhe desagradam mas naquela noite não lhe parecia um problema tão grande suportar.

Ainda bem que Stephen King não precisa de um substituto, porque trocar para a terceira pessoa foi uma forma tosca de suspense e eu tenho certeza de que não deu certo e que todo mundo já viu que o sujeito era eu. Mas fui lá, sobreviver a uns garotos que acham que estão no otorrino, com suas línguas de fora o tempo todo, e tem essas calças tingidas com hidrocor fosforecente. E depois, tive a sensação a céu aberto de andar num ônibus saindo da estação da Lapa às 18 horas, durante o show do Chiclete, de tanta gente junta. Mas entre essas duas coisas estava um dos artistas que mais admiro, que ainda trouxe a tiracolo um ícone da nossa música.

Eu conheço o trabalho de Jason Mraz há alguns anos, gosto de quase tudo que ele publicou até hoje, e foi para vê-lo ao vivo que convenci minha esposa a ir comigo e enfrentei essa sandice toda. Teoricamente, poderia ter ido embora depois de sua apresentação, mas o acordo era ficar até o final, e eu aceitei. Sua performance no palco teria sido marcante, talvez, para alguém que nem o conhecia, ou conhecia suas duas músicas que viraram tema de novela, mas para um admirador de seu trabalho… extasiante. Ele tocou pouca coisa nova, nós cantamos a maior parte das músicas porque já conhecemos bem as letras, mas sua vontade de interagir fala muito sobre sua personalidade. E abriu a chegada de Milton Nascimento cantando um de seus clássicos em bom português. O que eu vi ficou guardado na memória junto com os shows de Ney Matogrosso e Chico Buarque que tive a sorte de assistir.

Quando acabou, vieram as três próximas bandas. Nunca escondi que não tenho nenhuma simpatia pelo estilo musical do carnaval baiano, e foi basicamente o que elas tocaram. Mas reconheci naquelas pessoas pulando e dançando as coreografias muito bem sincronizadas o mesmo sentimento que me levou até lá. O motivo não era o mesmo, mas parecia ser a única diferença.

É como descobrir que o novo livro de seu autor favorito (não, não publiquei nada impresso. Ainda.) chegou ao depósito de outra loja da livraria e ir até lá para convencer o estoquista a abrir a caixa antes da hora, e voltar para casa com o livro em mãos. Ou virar umas noites para preparar uma surpresa para alguém cuja mera lembrança já lhe acelera o coração e esvazia os pulmões. A paixão que nos desperta comportamentos que, em condições normais de temperatura e pressão, não nos veríamos adotar. E, no entanto, parecem a atitude perfeita.

E são. Quem já acordou com os pés em brasa, cheios de calos e com aquela sensação agradável de ter posto a cabeça dentro de um sino de catedral ao meio dia, mas sem dar a mínima para esses incômodos e com o humor imaculado sabe bem o que é isso.



1 Comentário

  1. Tião Barros disse:

    Chiiiiiiiicleeeeeeteeeeee Oba Oba.
    Agora só falta ver o bora bahêa minha porra jogar.

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