Hard Candy

10/02/2011 Postado em Textos

Acho que minha geração inteira conhece as balas Soft. É um dos ícones da época, junto a coisas como Caverna do Dragão e os Trapalhões. Balinha gostosa, doce, mas danada de dura e já fez muito marmanjo por aí engasgar feio. Essas engasgadas lhe renderam uma má fama. Escutei várias vezes que era perigoso chupar bala Soft, podia entalar na garganta, e aí… já viu. Estranho, mas, depois de todo esse tempo, até quem engasgou com a danada lembra dela com certo saudosismo. Mais estranho ainda, saudosos de seus lados bom e ruim, não como quem lembra de um defunto e esconde seus defeitos que todos bem conheciam.

Pois calha de ser um fato que a vida nos arruma umas metáforas bem pitorescas para nos mostrar suas coisas. Absurdo dos absurdos, uma relação a dois é uma bala Soft. É doce, maravilhosamente doce. Gostoso, com certeza. Mas tente morder a bala antes da hora e é bem capaz que tenha uma surpresa nada agradável. Serve também para educar os vorazes, o exemplo. Afobação é um ingrediente perigoso e pode lhe render uma bela garganta entalada.

As pessoas têm preferido caramelos de leite. Eles são tão grudentos quanto fugazes. De tão enjoativos, lhe obrigam a deglutir mais cedo que o devido. Mas, ao mesmo tempo em que você termina comendo muitos dele, o danado não pára no estômago. É pequeno demais e abre seu apetite de uma forma que não se pode saciar. E dá uma sede danada. Às vezes parece que água nenhuma é o bastante.

Esse é o ponto, na verdade. As balinhas perigosas eram uma moeda com dois lados bem definidos. Doces e gostosas, mas duras e podem lhe engasgar. Que ocorre, você deve saborear com certa serenidade ou a terminará prematuramente, por qualquer razão que seja. Da forma certa, costumam ser longevas. As balas de leite, por seu lado, não oferecem riscos e são macias, doces e, também, gostosas. Mas não trazem saciedade verdadeira, não importa quantas você mastigue. De fato, mais delas mastigue, mais enjôo provavelmente lhe trarão.

Então… acordar ao lado de alguém de quem gostamos é doce. Estar ao lado dessa pessoa quando necessário pode ser duro. Apoiá-la incondicionalmente certamente é arriscado. Mas são faces da mesma coisa. Certamente há riscos envolvidos em um relacionamento, mas seus benefícios são inegáveis. Pelo menos, não encontrei quem fosse capaz de negar que um afago até adormecer não melhora a qualidade do sono. Ou que acordar abraçado não melhora o humor já de manhã.

Moedas têm verso e anverso. É um risco relacionar-se, mas também é um risco respirar e nós fazemos isso o tempo todo. Quem abre mão do lado difícil termina por abdicar da completude. Quem recusa envolver-se por inteiro em algo está lá apenas pela metade. E minhas frases curtas com períodos levemente titubeantes são as de quem quer explicar o ponto de vista com linhas bem mais longas, mas que se mostrariam inúteis. Porque toda ausência de sacrifícios é vã, porque um casal sempre terá pontos de vista distintos, porque isso pode trazer acertos e discussões, porque as diferenças se completam mas nem sempre sem arestas, porque isso tudo parece meio óbvio demais para ser desenrolado, mas, principalmente, porque só aqueles que partilham de suas vidas com outro alguém sabem o que é isso de verdade. E você até pode descrever a beleza de uma sinfonia para um surdo. O difícil vai ser ele conseguir sentir da mesma forma que aqueles que a ouviram.

No fim das contas, as tais balas Soft desapareceram. Pena, porque dão uma ótima metáfora. E eu gostava delas.

Texto inédito; Arquivo pessoal de 2008.



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