Procrastinação

06/01/2011 Postado em Textos

Quem nunca deixou para amanhã o que podia ter sido feito hoje? Eu já ouvi essa pergunta algumas vezes ao longo dos anos e não houve uma vez sequer em que algum gaiato não tenha protestado em causa própria, atraindo para si os louros que cabem àqueles que saem de casa com uma lista de afazeres pela manhã e terminam o dia com tudo concluído. Mas sejam honestos na resposta, mesmo que só bem lá dentro, no beco das verdades inconfessáveis que há em cada ser humano. Sim… confesse… você já adiou o inadiável, já postergou o impostergável, já renunciou à renúncia – opa, isso é coisa dum bigodudo aí. Risca essa última.

A procrastinação, essa eterna incompreendida, é descrita no senso comum como empurrar com a barriga. O jeito certo de definir o verbo procrastinar, entretanto, é algo como reagendar compromisso ou tarefa para um futuro a ser determinado posteriormente. Ou seja, meu caro, você não precisa carregar o fardo da culpa por ter parado aquele relatório enfadonho para encher sua caneca de café e comer algo. Afinal, saco vazio não pára em pé e você precisa definir suas prioridades. Seu chefe provavelmente só anda no seu pé esses últimos dias porque o chefe dele cobrou o trabalho que ele lhe delegou e que pretende entregar com o nome dele na última página.

Prazo. Certa vez, li um escritor (a quem eu adoraria dar os créditos da frase, mas infelizmente não tenho a mais vaga memória de quem seja) dizer que o prazo é sua grande inspiração. Considero isso uma maneira polida de dizer que prazo é o chefe de quem não tem chefe. E, meu amigo, se você tem os dois, meus sentimentos. Um já basta, dois já se pode considerar crueldade. Aquele cara do primeiro parágrafo que chega ao fim do dia com sua listinha toda cumprida provavelmente não tem prazo nem depende diretamente de ninguém para seus afazeres. Quem já passou uma tarde inteira atrás de um balcão só para trocar cinco palavras e uma folha de papel sabe bem o que estou dizendo. E aí, quando isso vira a rotina… você procrastina. Ih, rimou.

Falei que esse verbo é um incompreendido, olha aí. Pessoalmente, eu nunca vi ninguém deixar para depois algo que gosta de fazer. Eu deixei várias lições de inglês em branco, mas não perdia uma partida de River Raid.Não, eu não ganhava todas, mas não é esse o ponto. Maldita semântica. Eu jogava até bem mal, mas era divertido. Lição de casa, por outro lado, nunca era divertido fazer. Desconfio que é assim até hoje. Quem tiver filhos, por favor, me confirme. Quem faz o que gosta nem vê o tempo passar, de modo que se você vir um sujeito assim procrastinar, ele provavelmente esbarrou em alguma dificuldade e só está ocupando o tempo enquanto procura uma solução. O procrastinador rotineiro tem como perfil padrão aquele sujeito que depende de algo ou alguém para completar a tarefa e tem com esse algo ou alguém uma relação muito delicada, que o desgasta e pode ser até motivo de problemas mais sérios. Procrastinar pode salvar esse coitado de um infarto ou de um divórcio, quem sabe. Você aí, que esbravejou por dentro que nunca procrastina coisa alguma, fique na sua que você é minoria e ou bem é viciado em trabalho ou teve a sorte de ter como trabalho aquilo que o resto só pode ter como hobby bem mais adiante: o que você realmente gosta de fazer. Em ambos os casos, de novo, fique na sua. Vício em trabalho não é saudável e, se estamos falando da segunda hipótese, é muito feio contar vantagem.

Quanto aos demais… tu procrastinas, ele procrastina, vós procrastinais, eles procrastinam. Sim, nada de primeira pessoa. É óbvio, “eu” nunca procrastino nada! E viva João Pessoa, patrono dos que negam até a morte.



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