Pontas soltas

13/01/2011 Postado em Textos

Água e óleo. Indispensáveis, em vários contextos, inclusive a vida e o correto funcionamento de nosso organismo. E, entretanto, não se misturam. Armazenados no mesmo recipiente, eles literalmente o dividirão em duas porções, proporcionais ao volume de ambos. Podemos preparar um ovo usando óleo. Aprendi recentemente que podemos preparar o mesmo ovo da mesma maneira, só que usando água. Mas tente misturar os dois e, antes do ovo estar pronto, descobrirá que as chances de um resultado desastroso são enormes. Assim é com texto e imagem. Uma pessoa pode escolher entre os dois meios para passar adiante uma mensagem, mas é temerário usá-los juntos. Dificilmente algum bom resultado sairá dessa união.

Qualquer legenda além de título, autor, data e outros dados informativos é capaz de arruinar uma obra de arte visual, seja ela uma fotografia, gravura ou pintura. De igual modo, uma ficção que, descrevendo determinada cena, é acompanhada de imagem que visa mimetizar aquela descrição, perde, senão toda, grande parte de sua riqueza. Banaliza-se. Direciona a imaginação daquele a quem originalmente foi destinada tal obra. E direcionar a imaginação de alguém é como prender um pássaro para reter seu belo canto, só para descobrir que ele não é capaz de cantar se lhe tolheram a liberdade.

Há essa fotografia de uma exuberante rosa vermelha, deitada sobre um lenço de cetim branco, com duas alianças de ouro amarradas a seu caule com uma fita vermelha. Ao ver tal imagem, cada pessoa imagina um contexto, criado a partir de fatores ligados à imagem mas, principalmente, à sua história. Como uma impressão digital, ninguém terá imaginado exatamente a mesma história para essa fotografia. Eis que, sob ela, encontra-se impressa uma descrição, dizendo que foi com aquela rosa, entregue embrulhada naquele lenço de cetim branco, em bandeja de prata destampada por um garçom de luvas brancas, previamente instruído sobre como e quando agir, que João pediu Maria em casamento. Pronto, arruinou-se a imagem criada na mente de uma quantidade imensa de espectadores. O inverso também é verdade. Essa descrição, em um texto, provoca a construção da imagem na cabeça do leitor. Mas, se na página ao lado, existe gravura semelhante, ata-se a imaginação do leitor.

Partindo da premissa de que toda pessoa que imagina está criando algo, uma criação que tolhe a liberdade de imaginar está ferindo um semelhante. Um livro de arte que contém informações a extrapolar identificação, autor e técnica utilizada é verdadeiramente um engodo. Um verdadeiro artista sabe que não deve explicar seu trabalho porque deve permitir a cada um suas próprias impressões. Com que audácia vem um terceiro expressar o que teria sentido ou pretendido o autor da obra no ato de sua criação? A única maneira seria ler mentes, e esta é uma subutilização mesquinha de tão maravilhoso dom.

Lembremos de “No meio do caminho.” Nos últimos dez anos, eu li várias interpretações do que teria escondido Drummond por detrás dos versos desse poema. Pergunto-me se não foi simplesmente uma pedra bloqueando a estrada e obrigando-o a parar o carro. Sim, é essa uma das imagens que me vêm à cabeça quando leio o poema. Não sei se alguém partilha da mesma visão, mas que importa? No mundo que roda e translada dentro de minha cabeça, Drummond perdeu uma boa meia hora para mover a pedra e retomar seu caminho, numa estrada barrenta, e chegou à fazenda com as solas das botas recheadas por torrões de terra já seca.

Já li descrições e vi fotografias de Guernica, e foi quando a vi pessoalmente que pude dimensionar quão preciso é este raciocínio. Nada do que vi ou li até então fez, nem por uma unha, jus à obra de Picasso. Não sou capaz de descrever o que há naquele mural imenso, mas posso dizer com segurança que trago para sempre comigo o arrepio de cada pêlo de meus braços e a sensação estarrecedora que o sentimento de Picasso imprimiu àquela tela. E, em troca, ela levou quarenta minutos de minha vida. Quarenta minutos que nem mesmo vi passar, de pé, contemplando a grandeza daquela imagem.

Nenhuma ponta solta deixa um texto incompleto. Pontas servem para amarrar uma coisa a outra, permitem conciliar uma idéia a outra coisa que dali nasceu. Pontas soltas, como a fotografia do marinheiro beijando sua garota em Nova York, são as verdadeiras sementes de novas histórias. Explicar é amarrar pontas, é esterilizar. Ninguém deve tirar os lápis e o papel das mãos de uma criança, e ninguém deve ilustrar como é bonito o céu visto de minha janela quando as nuvens não escondem as estrelas, tão belas e numerosas que fazem da lua um corpo celeste humilde, com sua luz emprestada.



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