Plenitude

27/01/2011 Postado em Textos

Consigo tolerar a bexiga cheia por uma quantidade de tempo acima do razoável, mas não posso dizer o mesmo sobre a cabeça cheia de pensamentos. Claro, a pressão incomoda, mas dá para acostumar e educar o organismo a segurar mais um pouco se for necessário. Mas as idéias… elas são rebeldes e agem dentro da gente como hóspedes daqueles lugares com quartos de paredes almofadadas, em plena crise, chocando-se contra os cantos da mente e exigindo sair.

Da mesma forma como somente um cego pode ter a real experiência de viver em meio à escuridão dos olhos, embora seus outros sentidos lhe dêem a noção do ambiente, não espero que as pessoas entendam o que é essa necessidade. Escrever me faz feliz não porque seja uma brincadeira ou um passatempo com potencialidade profissional. Fico feliz porque não fico ansioso, tenso. Manter as idéias dentro da cabeça por um período de tempo mais longo que um par de dias é o suficiente para sentir alteração no humor e no apetite. Fora, no papel, as idéias me agradam e fazem bem. Dentro, são tóxicas.

Talvez toxicidade seja uma expressão exagerada para o que elas provocam quando represadas, mas é o mais próximo que a minha ponte entre sentimento e razão foi capaz de encontrar. Sei que há pessoas que trabalham com criação em diversas áreas que entendem o que quero dizer, e há alguns que simplesmente não conseguem parar de produzir, porque seu fluxo de idéias é tão intenso que elas simplesmente não lhes permitem parar. Como minha rotina não permite escrever à exaustão, nem meu fluxo de idéias é tão intenso que arrisque a saúde física, tenho sempre um bloco e um gravador à mão. A maior parte do que fiz ultimamente nasceu de coisas que vieram à cabeça enquanto fazia outras coisas, aparentemente desconexas da idéia manifesta.

Não conheço a história pessoal de muitos autores, menos ainda num grau que me permita exemplificar alguém que escrevia à exaustão, mas sei que não é incomum, tanto mais intenso quanto mais perfeccionista é o sujeito. Compositores musicais devem ter bastante trabalho para lidar com isso, aperfeiçoar suas melodias e letras, certamente é um trabalho árduo. Se bem-feito, quanto menor é o texto, melhor tem de ser a escolha de palavras e termos, para garantir a mensagem desejada dentro do formato que se escolheu para trabalhar. Nesse ponto, aqueles que inclinam-se à prosa são afortunados, porque temos a liberdade de ser descritivistas e até embutir uma discreta (ou não) piada aqui e ali. Poetas têm muito mais trabalho, sua obra tem uma série de convenções de formato a serem observadas. Na literatura, se assim o autor desejar, até a pontuação pode ser abolida em alto grau.

Independente do meio, elas saem. As idéias são como gatos, que vêm lhe ver quando querem, como querem e pelo tempo que querem. Talvez por essa natureza elas me façam tanto estrago quando não as deixo sair. Me acordam no meio da noite, só para eu encontrar a voz de um figurante do Zé do Caixão no meu gravador na manhã seguinte, me sussurrando algum pensamento interessante. E o mais curioso disso é que você fica feliz por não represá-las, porque fazê-lo lhe altera o humor de maneira negativa, mas também se sente feliz e leve porque é como se tivesse feito aquilo que você descobriu, em última análise, ser o seu trabalho. Esse último sentimento é o que faz pessoas largarem carreiras porque nunca se encaixaram de verdade nelas, porque descobriram o lugar ao qual pertencem, e foram atrás desse lugar, muitas vezes andando no escuro, muitas vezes demorando muito tempo até ver seu trabalho dar frutos. Alguns de nós tiveram a sorte de ter amigos, companheiros e companheiras de vida, família, a nos apoiar e incentivar nos momentos difíceis e dividir a alegria nos momentos felizes. A certeza que faltava sobre a escolha do caminho adotado chega exatamente nesses momentos de apoio e partilha, e isso tudo, junto, é o que outras pessoas chamariam de realização profissional.



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