Pasárgada

20/01/2011 Postado em Textos
(…)
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)

O sabiá nunca cantou em palmeira alguma. Aliás, eu não consigo pensar no que um pássaro teria perdido naquelas folhas finas e espaçadas para sequer pousar em uma. Mas nossa terra é rica. Rica em recursos e beleza naturais, em história e as pessoas que agora dela fazem parte, rica em legados culturais, na ciência, na música, na literatura e no cinema, essas jóias que nos foram deixadas por gente como Machado, Monteiro Lobato, Heitor Villa-Lobos, Clarice Lispector, Bilac, Oswaldo Cruz e tantos outros. Rica na sempre renovada criatividade de nosso povo.

Nossa terra que não tem só palmeiras, mas mangueiras, cajueiros e açaizeiros, é, em última análise, a Pasárgada de Bandeira. Basta ver como nosso verão fica coalhado de visitantes estrangeiros. A gente não enxerga isso porque a grama do vizinho é sempre mais verde e isso dificilmente mudará algum dia, o que explica o fascínio de tanta gente por visitar lugares cuja única atração é comer coisas cheias de calorias vazias e comprar. E voltar de lá mostrando pra todo mundo como é bom aquele lugar, onde achou determinado objeto que até existe aqui, mas lá é muito mais barato. A síndrome do turista sacoleiro. Sacoleiro e tacanho, porque diminui sua própria terra em comparações de veracidade duvidosa com aquela de onde regressou. Enquanto isso, os nossos visitantes, não raro, fazem elogios rasgados ao que encontram por aqui, mas são incapazes de desdenhar do lugar onde nasceram. Já vi quem dissesse “prefiro viver aqui”, mas não que aqui é melhor que lá. É diferente.

Mas nossa Pasárgada, hoje, vive dias obscuros, com fluminenses, paulistas e outros cidadãos passando por momentos que, temendo a dor de vivenciar, minha imaginação nem mesmo vagamente se atreve a tentar mimetizar. Engolindo vidas, lares e objetos, a lama e as águas vivem seus momentos de onipresença, formando um solo fértil apenas para o desespero. Como toda moeda tem dois lados, essa situação triste expõe a solidariedade das pessoas, que doam mantimentos, vestuário e outros objetos e oferecem seus braços e pernas para ajudar a aliviar o sofrimento alheio.

Desde que comecei este projeto, tenho preferido manter uma linha mais leve, posto que sou um confesso admirador de risadas e se um texto meu fizer ao menos uma pessoa sentir-se mais leve, seu objetivo foi cumprido. Esta semana, entretanto, por mais que quisesse um tema leve, simplesmente não consegui. Peço desculpas se alguém sentiu seu tempo desperdiçado com este texto, mas fingir minhas palavras, maquiar estas linhas com um tom que não existe neste momento… eu não consigo. Não quando leio os jornais e vejo notícias dando conta de que as autoridades tiveram acesso a relatórios de risco dos locais atingidos pelas chuvas com uma antecedência que só é menos inaceitável que sua inércia. Essas pessoas, que são pagas com o dinheiro obtido através de nossos tributos, e que deveriam trabalhar para o bem comum, não para seus interesses, não para garantir sua permanência na política, são indignas das cadeiras em que sentam. Não agiram quando era possível prevenir e agora acham que uma canetada e uma aparição à imprensa são suficientes para mostrar sua preocupação com seus cidadãos. Declarar estado de calamidade enquanto os civis, cidadãos, e a Cruz Vermelha é que estão lá, cobrindo corpos com lonas e cuidando dos que sobreviveram, é algo criminoso. Posar de proativo confortavelmente instalados em seus palácios, eles precisam saber, é fraude.

Infelizmente, na verdade, eles sabem. Infelizmente, nosso povo, que desdenha de sua maravilhosa Pasárgada, nasce com um defeito congênito chamado Amnésia Quadrienal. Essas pessoas fazem barbaridades por quatro anos seguidos e, como quem tira uma moeda da orelha alheia, conseguem encantar o povo e voltar para o lugar que nunca deveriam ter ocupado algum dia. A lama, os escombros, eles sequer verão pessoalmente. Quando pegam numa pá, é simbólico, para inaugurar alguma obra que usarão como plataforma eleitoral mais adiante. Nós não precisamos de gente assim, eles é que precisam de nós, de nosso suor e nosso sangue, para sobreviver, e nos envenenam com a crença de que são necessários. Tiram pessoas capacitadas de cargos técnicos para acomodar correligionários, mas falta gaze numa emergência de hospital público. Ocupam gabinetes suntuosos e climatizados, mas os filhos de seus eleitores estudam numa escola espremida, feita de tijolinhos expostos e um telhado que deixa o ambiente abafado nos dias de sol e molhado de goteiras nos de chuva.

Então, eu peço desculpas aos meus caros visitantes. Sinceramente. Porque não me é possível fazer um gracejo, uma piada, um trocadilho, quando mais de seiscentas vidas foram ceifadas até a data deste texto, e tudo porque não se preveniu nada, tudo porque não era conveniente a essas pessoas que usam gravatas de seda italiana e andam no banco de trás de algum sedã de luxo, comprado e mantido com nosso dinheiro. O nosso e o daqueles que a tragédia carregou.



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