Troca-letra

09/12/2010 Postado em Textos

“…E que fique muito mal explicado.
Não faço força para ser entendido.
Quem faz sentido é soldado.”
(Mário Quintana)


Por vezes, lembro da frase do Quintana. Eu só conheço fragmentos de sua obra, vez que nunca fui muito afeito a poesia. Mas percebo que o que quero é apenas ser entendido, na acepção cognitiva. Se o leitor compreenderá o que escrevi ou porque aquilo foi escrito, não sei e não me interesso em saber. Não vai me mover nem influenciar meu trabalho porquanto ele tem vida própria desde quando sai de minha cabeça para o teclado. Quando uma idéia resolve se concretizar, não sou eu quem dita os pormenores. As coisas vão acontecendo, os contextos e situações vão surgindo. Eu consigo, no máximo, traçar início, meio e fim, o que não é muito mais do que se conseguia numa redação de colégio. Todo o mais, tudo aquilo que jaz entre uma ponta e outra tem personalidade, tem opinião. Idéias têm livre-arbítrio, que ninguém se engane. Todo o mundo é baseado nelas, que surgem quando se lhes dá na telha.

Exagero? Conto uma história como minha imaginação enxerga. Mas há cenas que eu simplesmente não sei de onde tirei. Havia uma aparente lacuna e, de súbito, um contexto novo a preencheu como feito para estar ali, mas até então eu nunca tinha pensado naquilo, nem mesmo casualmente. Foi uma idéia que apareceu e quase pulou o intermediário, indo direto às pontas de meus dedos que martelam o teclado.

E há momentos em que você engrena na construção de um texto, escrevendo freneticamente, e… a idéia simplesmente desaparece de sua cabeça. Vem aquele desconsolo de não saber continuar misturado com a desconcertante sensação de ter um momento de sua vida roubado, um vazio em suas memórias. Um branco. Não, as idéias não são vingativas, elas são melindrosas mas francas e puras, como crianças.  E, como tal, sujeitas a comportamentos volúveis. Quem nunca levantou da cama quando estava – finalmente – pegando no sono porque surgiu uma excelente idéia que certamente não esperaria o nascer do sol? Os que não saem da cama certamente têm um gravador ou um bloco de notas e uma caneta no criado-mudo.

É verdade que não se reclama da inspiração surgir num momento impróprio, já que ela está alheia às nossas noções de tempo e espaço, então a saída é ter um gravador à mão. Exceto pelo fato de que gravadores são umas coisinhas detestáveis e antipráticas. Eles representam o intermediário desnecessário, o fazer duas vezes porque não fez bem-feito. Você grava uma idéia enquanto dirige, sobe em um elevador ou coisa semelhante, mas aquilo só tem utilidade prática depois de ouvir sua própria voz, como num irritante ditado, e transcrever o áudio, filtrando eventuais divagações.

Há pessoas que conseguem disciplinar sua criação e passar longos períodos sem escrever e lidam bem com isso. Há aqueles que usam texto como válvula de escape, da mesma forma que outros usam quadros ou música. Mas há, também, uma certa modalidade em que escrever é muito mais um processo fisiológico. Expressar a criatividade, na verdade, porque isso pode valer para toda forma de arte. Uma vez atingida certa maturidade na sua produção criativa, o organismo pode usá-la para conservar a higidez mental. Há aparência de abstinência na ansiedade gerada por períodos longos sem produção, mas, do que entendo, vício é algo de origem externa. Mesmo os psicológicos têm origem num estímulo externo. A criação é algo que principia no interior, de modo que não poderia jamais ser considerada um vício, senão uma função do organismo. A agonia de não poder expressar a criatividade pode ser comparada à de querer mexer um membro imobilizado e não poder, porque há um gesso ou outro aparato bloqueando o movimento. E o exercício dessa criatividade é algo tão gratificante que serve, sim, até mesmo como válvula de escape para a vida urbana porquanto o bem que proporciona é suficiente para anular aquilo que nos faz mal e, por vezes, ainda sobra para nos fazer sentir bem.

Quando há um incômodo interior que não pode ser racionalizado, eu escrevo. Nem sempre com o intuito de criar, apenas de deixar minha mente se expressar da forma que julgar apropriado. Não raro, fragmentos de textos, lacunas que eu buscava preencher por dias a fio, surgem no meio desses momentos de liberdade das minhas idéias. Para alguém com necessidade de deixar palavras fluirem no papel, a idéia de trabalhar com isso é algo natural. Quando Saramago faleceu, li vários artigos sobre sua vida e obra, e me chamou a atenção quando ele foi citado dizendo que escrever é apenas mais uma profissão. Entendo que ele pretendeu tirar fora a aura de intangibilidade que algumas pessoas gostam de se conferir quando exercem tal ofício. É uma profissão, mas não é simplesmente. É necessária a paixão. Quem escreve algo técnico não é escritor, mas profissional da área de origem do conhecimento que está registrando. Quem escreve artigos para periódicos é mais jornalista que escritor, porque aquela é a razão primeira de seu trabalho. Aquele cujo objetivo se confunde com a forma, sim, aquele é escritor. E aí, sim, Saramago tem razão, mas é necessário traçar esta linha. O escritor é aquele que, trabalhando com palavras, engloba em seu meio o seu fim. Pura e simplesmente.



3 Comentários

  1. Carcarah disse:

    Fantástico isso de as idéias surgirem e fazerem todo o sentido em um momento, para em outro sumirem sem deixar vestígios. Já penei até em gravar coisas que penso para depois passá-las para o papel, mas, falta-me disciplina para tanto. Já conhecia sua verve para a escrita dos vários e-mails que já li em lista que frequentamos juntos. O talento não me surpreende.
    Parabéns por sua volta aos escritos públicos.
    Cito um xará seu em texto que reflete muito do que você disse, Fernando Pessoa:

    Da mais alta janela da minha casa
    Com um lenço branco digo adeus
    Aos meus versos que partem para a Humanidade.
    E não estou alegre nem triste.
    Esse é o destino dos versos.

  2. Thiago Vieira disse:

    Parabéns, excelente texto. Boa sorte nesse novo espaço.

  3. Cleber Costa disse:

    Solta o verbo! Parabéns…

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