Resoluções

30/12/2010 Postado em Textos

Entre um réveillon terminado com um grupo de amigos vendo o sol nascer na praia enquanto um de nós fazia anjinhos na areia depois de beber dois copos de algo que foi comprado como vinho de garrafão mas que tinha cheiro de álcool de cana com ki-suco de uva e o que estamos à véspera de vivenciar, passaram-se alguns anos e muitas resoluções de ano-novo feitas e descumpridas solenemente. Encaremos: essas resoluções são primas das promessas de político e dos avisos de acesso preferencial em portas de elevadores. Nascem vistosas e não demoram muito para provar sua completa e retumbante inutilidade. Não são irmãs porque as primeiras são filhas da culpa, as segundas do mais puro extrato de canalhice e as últimas… essas são filhas da boa intenção, mas o pai é desconhecido. A história do vinho falsificado não tem nada a ver com este texto. É só um aviso para os que pretendem enfiar um pé na jaca e o outro na melancia na virada do ano: confiem em seus narizes e aprendam de uma vez por todas que fígado não é penico. E não, ninguém mais acredita naquela máxima de pinguço, “nunca mais bebo”. Nem você. Até porque o carnaval tá ali na esquina.

Não se sabe ao certo quem veio primeiro, a resolução de ano novo ou a culpa. Mas uma leva à outra, inevitavelmente. O distinto sujeito resolve que vai mudar determinado comportamento, fracassa, frustra-se e faz nova resolução. É como manter uma mentira viva usando uma nova mentira. Claro que não é assim para todos e há aquelas pessoas com força de vontade suficiente para estabelecer metas para o ano vindouro e terminá-lo com a lista cumprida. Infelizmente, se você tem meia dúzia de amigos e um deles é assim, as chances de você também ser são… eu não sei se existem tais chances. Na verdade, mesmo que existissem, não ficaria tão animado com a possibilidade, porque há chances até para ganhar na loteria e eu nunca ganhei. Nem conheço alguém que tenha conseguido. Ou o ingrato finge bem demais.

Módulo, direção e sentido. De dois anos de física com o mesmo professor, há dez anos, eu guardei essas três palavras. Não desmerecendo o trabalho dele, claro, mas ação e reação são duas coisas que podem ser encontradas em qualquer aspecto da vida. Literalmente. Comecei a pensar mais nisso depois de ler um ensaio de Santo Agostinho. Antes de se ordenar, era tudo menos santo, mas morreu Bispo, o danado. Ele disse nesse texto que “se o homem soubesse o quanto é bom ser bom, seria bom por egoísmo” e isso fritou meus miolos por alguns dias. Vá, isso foi há uns oito anos, mas o fato é que ele tinha razão, e nem considero o ponto de vista de sua filosofia teológica. É pura física. Essa frase se traduz em um preceito praticado por muitas filosofias de vida, e não tenho notícias de ninguém que tenha precisado levar uma maçã no cocoruto pra perceber isso. Claro, teve Sir Newton, mas falei de fora da Física.

Tudo que sobe, desce, e tudo que vai, volta. E este é o único sentido duplo que pretendo aplicar aqui, antes que alguém pense maldades. É curioso como fazer algo, tipicamente, traz o gesto de volta de alguma maneira. Procurei pensar nisso uma tarde inteira no início do ano, para acreditar que mereci ter a calça do terno encharcada por água de sarjeta quando um carro passou rápido ao meu lado. Desde então, eu tento passar longe dos passeios e pontos de ônibus em dias chuvosos, como medida preventiva. E, embora tentando – e esperando conseguir – manter um tom leve aqui, atesto que a física aplicada ao cotidiano funciona melhor do que parece. Basta ver, quem procura ajudar e ser útil dificilmente passa aperto quando precisa de ajuda. Não necessariamente trocando pneus ou tirando gatos de árvores, mas coisas pequenas como segurar uma porta de elevador para uma senhora que carrega uma criança no colo, por exemplo. Se você não tem esse tipo de gesto naturalmente, tente se educar a praticar. Ultimamente, tenho me educado a dar passagem às pessoas no trânsito. Duro é quase perder o porta-malas porque você parou na faixa e quem vem atrás discorda de sua decisão, mas é a vida.

De toda forma, as resoluções de ano-novo parecem ter caído em descrédito, a julgar pelas piadas que tenho visto nos últimos dias. Talvez seja até melhor do que se prometer algo para depois julgar-se fracassado por não ter cumprido, seja por falta de ação, seja por depender de fatores externos que não colaboraram. Melhor é não prometer nada e simplesmente fazer. Fazer aquilo que você quer. Não o que é de sua vontade, mas o que quer que lhe seja feito. Refletir sua vontade, sua personalidade, em seus atos e palavras. Em alguns casos, isso pode requerer coragem, o que só torna as coisas mais interessantes. E isso nunca dará errado pela simples razão de que você controla seus atos, aquilo que rompe a inércia, mas nunca o resultado. Saber isso intelectualmente é inútil, é preciso perceber. As coisas ficam mais fáceis quando a gente deixa de carregar fardos inúteis. É este o meu desejo para o próximo ano e os próximos depois, que vivamos quem somos e que tudo seja da melhor maneira. Para todos nós. Até para a vizinha chata que arrasta móveis sobre minha cabeça depois das 23 horas.

Feliz 2011.



3 Comentários

  1. Rodrigo Smarzaro disse:

    Eu cumpri todas as minhas metas estabelecidas para 2010 e estou pensando na minha listinha de 2011 que está tão ambiciosa quanto!!! :-)

    Ótimo texto Fernando.

  2. Luiz Freitas disse:

    Olá Fernando! Não li anteriormente pois realmente nao tinha ficado sabendo deste seu blog… Muito bom o texto! E desejo a voce toda sorte e felicidade em 2011
    Luiz

  3. Fernanda disse:

    Oi Fernando, nossa adorei a forma como vc escreve, parabéns!
    Felicidades, Fernanda.

Deixe seu Comentário para Luiz Freitas