Máquina de Fazer Doido

16/12/2010 Postado em Textos

A Internet. Se Stanislaw Ponte Preta a tivesse conhecido, certamente a “Máquina de Fazer Doido” não seria a televisão. Tem cachorro, gato, papagaio e periquito com perfil no Orkut. Meu vizinho, dois andares abaixo, recém-alfabetizado, aposto que já tem. Quando eu lembro que esse negócio de rede social era uma coisa mais restrita, com uns poucos usuários e o tal Orkut era só para convidados de membros, paro pra contar os anos chego à conclusão inevitável: nós, que evoluímos das BBSs pra a WWW a partir de 1995, somos velhos. Se houvesse um museu de história natural da internet, nós estaríamos nele. Duvida? Pergunta pro seu vizinho de doze anos se ele usa ICQ. Modem discado. Disquete de 5.25”. Agenda Casio. Kit Multimídia. Genius, da Estrela. Lembrou de mais de dois desses, sua peça de museu? Brincadeira. O Genius não é coisa de velho, é uma jóia a ser preservada, e jóias não envelhecem. Só você.

Naquele tempo, a coisa movida a bateria que mais andava comigo era meu relógio G-Shock. Hoje, eu esqueço até a carteira em casa, mas não saio sem o telefone. E conheço muita gente vivendo a mesma realidade. E o cenho franzido de quem brincava de profeta do apocalipse, dizendo que a internet destruiria a sociedade porque faz as pessoas se verem menos não passou de um grande exagero. E não, não dá pra comparar isso à história do sujeito que usou a bandeja do leitor de CD como porta-copos, porque ela tem grandes chances de ser verdade.

Menos de dez anos depois da grande popularização da comunicação eletrônica, uma passada de olho na praça de alimentação de um shopping center permite contar não menos que dez notebooks. No que eu aproveito: gente, é errado usar a tomada da luz de emergência pra ligar a fonte, e é pior ainda esquecer de ligá-la de volta depois. E o que gerou um aparente isolamento aproximou pessoas, tornou possível trocas de conhecimento entre gente das mais diversas áreas em localidades distintas e, não raro, distantes, e até propiciou relacionamentos e amizades com pessoas que moram longe.

Mais ainda, dá pra notar uma mudança no comportamento de avestruz do povo de cidade grande. Antes, o normal era a gente ignorar uns aos outros, porque nos ensinaram que não se deve falar com estranhos. O máximo a que chegávamos era um cumprimento, e quanto maior fosse a cidade, mais arraigado era esse comportamento. Hoje, o dono de um café que freqüento colocou uma régua de tomadas em uma das lojas e, na outra, nós, os clientes, andamos com aquele negócio que pode se chamar T ou Benjamin, a depender de onde você vive, para compartilhar tomadas. Convivendo nesse meio há alguns meses, posso dizer que não vi ninguém se fechar ou ser rude com outra pessoa, antes pelo contrário.

E o ciclo muda de cara mas permanece o mesmo. Sei-lá-quantos-anos-atrás, carta era coisa de rico e as pessoas mandavam notícias passando-as de forma oral aos viajantes. Depois, popularizou-se a correspondência. Veio o rádio e as famílias passaram a se reunir ao redor dele para ouvir música ou as notícias, e isso alterou de novo o comportamento da sociedade. Quando veio a televisão, a queridinha do saudoso Stanislaw, novamente o comportamento mudou. Vá que com a TV por assinatura surgiram as “batatas de sofá” e isso é um extremo, mas os extremos, no fim das contas, são a medida do bom senso. É óbvio: com eles, você sabe qual a atitude saudável, ficar longe deles. Sem… se vira, camarada. E boa sorte.

Sei é que hoje a turma mais jovem usa as redes sociais, SMS e afins para manter contato, e mistura a convivência física com a eletrônica de um jeito que faz parecer existir uma simbiose indestrutível entre elas. E-Mail hoje é para receber confirmação de cadastro e aviso de que chegou recado, e o microblogging tá na crista da onda. É o telegrama de nosso século. Há quinze anos, uma casa de gente moderna tinha TV de tela plana com canais via satélite, telefone sem fio e fax. Hoje a gente tem é internet no celular, rede sem fio com banda larga em casa e assiste a vídeos pelo Youtube. Essa facilidade toda de comunicação tem outro lado positivo: não faz mais que umas semanas, me socorri de um amigo médico, que conheci online, a propósito, quando não havia a quem recorrer aqui em minha cidade. Da mesma forma, já ajudei outras pessoas com o que estava dentro de minhas possibilidades. Quem foi o usuário de TK Color que profetizou o apocalipse da sociedade com essas mudanças todas? Avisem-no, por favor, que tem um balcão de equipamentos velhos lá no centro vendendo um leitor de fitas que pode lhe interessar. E se chorar um pouquinho, leva uma Rima de 24 agulhas de brinde.



2 Comentários

  1. Gurx disse:

    Excelente texto!!! Lembrei de várias coisas que voce citou e outras não citadas (disquete de 8″, memórias de núcleo…)!!
    E fiquei pensando se eu não estaria ficando (?) velho… Não! Velho não, só com bastante experiência!!!

  2. Lucas Braga disse:

    ICQ! “Oh oh”!

    Lembro até hoje.. Bons tempos (ou não.. :P)

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