Feliz Natal

23/12/2010 Postado em Textos

Você levanta num dia ruim, anda como quem se arrasta, e lá vem aquela criatura, com óbvias demonstrações de alegria em lhe ver, pulando em você para lhe desejar um bom dia. Estranhamente, isso é muito eficiente em melhorar seu humor, e até lhe arranca um sorriso e alguns segundos para devolver o cumprimento. E, a despeito de uma possível conotação da frase, ela não descreve o seu encontro com um puxa-saco contumaz. A menos, claro, que você seja patologicamente narcisista. É só o seu cão lhe desejando um bom dia.

Já escutei algumas vezes que certas coisas você só entende depois que têm filhos. Essa frase bem se pode aplicar a quem tem bichos. Cada um à sua maneira, porque, dizem, o animal meio que mimetiza seu humano, e já vi o bastante para acreditar nessa suposição. Enquanto cães costumam ser mais afáveis, gatos são mais imperiosos, e há quem os tenha e seja exatamente da mesma maneira, num equilíbrio doméstico de poder muito delicado. Visitei uma parente que tem um gato persa que, sem brincadeira, deve perder 60% de sua circunferência durante o banho. Pois esse sujeito de rabo comprido simplesmente deitou sobre meus pés e não havia jeito de eu me levantar, porque eles parecem frangos desossados quando adormecem: não há jeito de tirá-los do lugar sem que escorreguem como geléia. Isso é bem o que se pode chamar de garantir sua vontade independente do seu estado de consciência. A pessoa que divide o apartamento com esse senhor? Quem é, eu não conto nem a Tomás de Torquemada. Mas ela tem, hum, a mesma determinação dele quando quer fazer algo. E tem uma outra pessoa cujos felinos demandam atenção deitando sobre seu teclado. Impossibilitando o acesso a algo que estava em uso e, portanto, eliminando obstáculos. Desconfio que Napoleão Bonaparte tinha alma felina.

Cães têm uma maneira mais humanamente infantil de demonstrar seus sentimentos e interesses. Sabem fazer caras e bocas quando querem algo e demonstrar seu protesto a algo que os deixaram descontentes da forma mais malcheirosa ou caótica possível. Mas, não raro, preocupam-se mais conosco que consigo próprios, não raro sendo os primeiros da casa a acordar e os últimos a dormir. E têm uma capacidade perturbadoramente aguçada de saber quando precisamos de companhia ou simplesmente quando alguém está chegando, antes mesmo que se aproxime. Havia essa cadela que sabia que sua dona já estava na garagem, há seis andares de distância, sabe-se lá como. Talvez reconhecesse o barulho do motor do carro, ou sei lá o que. Mas sabia e a esperava à porta de casa, infalivelmente. E eles fazem uma festa quando chegamos cansados da rua, como crianças pequenas, como quem sabe que isso ajuda a espantar o dia que ficou para trás.

Mas, se da fidelidade canina e da individualidade felina muito se diz, tenho a prova de que isso não é um conceito absoluto. Um cão e um gato foram criados juntos, desde filhotes, e tinham ao outro como irmão, viviam juntos e até quando se metiam em brigas, o outro ia para cima do adversário e o punha para correr. Eu não lembro seus nomes, mas lembro de muitas histórias desses dois que ouvi quando era pequeno, já que eles não estavam mais aqui quando nasci. O fato é que o cachorro se enamorou de uma cadela que vivia perto de casa e passou a visitá-la com regularidade. Seu dono não gostou nada de descobrir isso e cometeu a pior das traições que se pode cometer contra um animal e, talvez, até contra humanos: deixou ao alcance do cão, mas longe de sua cadela, um prato com iscas de carne recheadas com veneno. O cão não durou muito depois dessa refeição, e o gato simplesmente soube que seu amigo tinha partido. Depois disso, passou a recusar qualquer alimento, até mesmo água, e terminou falecendo também, alguns dias depois, de fraqueza física e tristeza profunda pela perda do irmão com quem cresceu.

Mas personalidade não é uma exclusividade dos quadrúpedes domésticos. Conheci um casal de papagaios muito peculiar, e eu mesmo não acreditaria em sua existência se não tivesse visto com meus próprios olhos. Não, não tem nada a ver com o fato de ser o único casal que vi até hoje onde a fêmea praticamente não emite um som e só o macho fala, e fala o tempo todo. O inacreditável é o comportamento do sujeito das penas verdes, que, vendo-me perto demais da sua grade, advertiu num tom esganiçado, “cuidaaaado”. Repetiu mais uma vez o aviso. Não houve uma terceira vez – deu uma bicada certeira bem onde estava meu dedo segundos antes e disparou um sonoro “eu aviseeeei!” Óbvio que eu gargalhei longamente, mas só depois de me recuperar do susto de escapar duma bicada daquelas por questão de segundos. Mas não é a única coisa que essa ave é capaz de fazer. “Louro tá com fome. Louro tá com fome.” Sua dona, de pronto, respondeu que já ia com a comida, mas ele não se fez de rogado: “Louro tá maltratado.” Não culpo quem duvidar dessa história, porque eu mesmo não acreditaria se não estivesse lá. Baita figura, ele.

Aos finalmentes: Hoje é 23 de dezembro. Porque estou falando de bichos, e especificamente de bichos que convivem com humanos? Simples: Além de seus pais, as únicas testemunhas vivas do nascimento de Cristo eram os animais que estavam ali. Mesmo os Reis só teriam chegado algum tempo depois. Aparentemente não há muita conexão, mas é fácil perceber que os animais participam da nossa vida da mesma forma que participamos da deles. Cuidamos uns dos outros, cada um da forma que o outro precisa mais. Nós precisamos mais de um afago que eles, que sabem disso. E eles precisam mais de nós materialmente, e nós lhes provemos. São formas de vida tão sagradas quanto a nossa, e merecem a nossa justa homenagem nesta ocasião tão especial que é respeitada até por aqueles que não a celebram, mesmo que neguem, mesmo que apenas de maneira subliminar. E, como Jesus teve amor por todas as criaturas durante sua breve estada neste mundo, a maior parte de nós tem amor pelos bichos que vivem conosco, com afetuosa reciprocidade. É tempo de demonstrar esse sentimento, de agradecer pelo que há de bom em nossas vidas, e escolhi agradecer a todos os animais que trouxeram alegria e conforto durante tantos anos.

Feliz Natal.



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